sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Poema

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:57 0 comentários

Nós todos somos criaturas ansiando por atenção
Gritamos sozinhas no escuro aguardando alguém nos ouvir
Esperando uma voz que responda:
- Eu estou aqui.
Nós somos todos filhos da dor e dor medo
Rezando baixo, clamando por amor
Esperando que Deus nos diga:
- Não se assuste, estou aqui.

Nós somos todos escravos da esperança
Mesmo sofrendo jamais deixamos de acreditar que algo melhor está por vir
Chorando alto pedimos clemência
Dói demais estar aqui.
Eu sou vazia e insegura
Choro sempre, mas nunca deixo uma gota cair
Perdida no escuro me sentindo estranha

Queria , muito que alguém me notasse aqui.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Perfume

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:07 1 comentários
   Cheirei o travesseiro e senti o seu cheiro. Tratei logo de ligar o ventilador e colocar o colchão na varanda. Fiz uma mandinga e coloquei a manta na máquina de lavar. Eu fiz de tudo para te afastar amor. Verdade seja dita, eu não te quero mais. Coisa ruim traz negatividade e você já empestou demais o ar por aqui.
   Eu fui à cozinha preparar um café amargo, que é pra tirar o seu gosto da boca. Depois tomei um banho quente e demorado. Esfreguei a carne até ficar vermelha. Não quero marca nenhuma dos seus dedos em mim. Eu estava séria quando pedi para sair e desculpa se fui meio brusca, mal educada. Sei que não tinha o direto de jogar suas coisas pela janela e queimar o seu computador. Mas vejo as coisas deste lado, o lado que cansou de ser mal amada e iludida acreditando que tudo chegaria ao fim.
   Pensando bem, eu mudei. Fiquei mais forte e amarga, a simples lembrança sua é algo que não consigo suportar. Para te apagar queimei todas suas cartas e fotos. Desinfetei os quartos, a cozinha, a sala com água sanitária e defumador. Se pudesse até sumia com você do mundo. Te apagaria sem problema algum. Você desapareceria dos registros funerários, das noticias e dos jornais. Por mim você nunca teria existido. Tudo para não cruzar com você por aqui.
   Pra não falar que não avisei, toma cuidado. Você sabe os horários em que vou para academia, sabe onde eu como e quando durmo. Sabe bem a placa do meu carro, eu iria detestar te atropelar por aí. Ter que limpar os seus pedaços do para-choque daria muito trabalho, coisa que você nunca mereceu vindo de mim. Podia sim ter uma morte maldita, digna dos filmes péssimos de terror que me obrigava a assistir. Por mim você não merece nada. Era só isso que queria te contar, só para o caso de precisar saber.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Bagunça

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 12:38 0 comentários
   Você tropeça pelos trapos de si mesma, largados no chão. Sua alegria embolada com umas peças de roupa suja, ao lado de uma montanha de problemas. Bem em sua frente você vê a pilha de louça suja se amontoando e junto dela sua tristeza, o ralo que está entupido trasborda e lá está você enxugando aquela bagunça toda. A tristeza transbordando pelo chão se mistura com suas lágrimas.
   Você pega o pano de chão, seca aquilo tudo e espreme no balde. No caminho que droga! Você tropeça na agonia, lá vai aquela bagunça toda se esparramar novamente. Tudo isso dá uma canseira e você senta no canto do quarto junto de seu colchão. Ele está estufado com as noites mal dormidas, com a insônia e os pesadelos intermináveis. Acabou por não sobrar espaço para você e restou somente sentar no chão. O seu travesseiro está encharcado de suor. Aquelas lágrimas benditas que estão esparramadas lá pelo chão, também estão misturadas com o travesseiro. E você está destruída, e quem te vê acha você muito abatida. Seu sorriso amarelo não consegue disfarçar muita coisa, e as pessoas fingem se deixar enganar. É para não ficar feio. Já que você se esforça tanto para encenar essa mentira, é melhor fingir que acreditou.
   Não dá para ficar no quarto, nem dá para ficar na cozinha, a sala esta intransitável com aquelas pilhas todas e a sacada é só poeira e poluição. Mas você ainda tem aquele canto no armário. Pode se embolar com as peças de roupa que herdou da sua mãe. Elas ainda têm o cheiro de alento e de infância. Trancada dentro do armário você não precisa ver passar o tempo. Você pode fantasiar que ainda é dia, que a hora não passou e que quando sair ainda vai dar para terminar aquelas tarefas e depois concertar sua vida.
   Acontece que ela estagnou. Vivendo você virou em uma esquina com o destino, entrou num beco sem saída e quando notou, não conseguia mais voltar. Você virou e deu de cara com um monte de paredes, desde então você gasta a energia tentando sair daquela gaiola. Além da energia você também gastou suas unhas, que ficaram em carne viva por tentar escalar os muros altos, seus braços estão roxos e duros de tanto dar socos na vã esperança de derrubar as paredes. Até a cabeça você bateu sem resultado. Suas roupas ficaram puídas quando você juntou pedaço por pedaço para lançar uma corda e quem sabe sair dali? Mas não adiantou, e nada na sua vida tem adiantado.
   Eu sinto muito, não vai ser agora que vai ver o fim. Ainda tem muito trabalho a fazer. Mas eu não vou te obrigar sair desse seu lugar seguro, dentro do armário, abraçada nos suéteres da sua mãe. Pode ficar mais um pouco, e pode ficar o quanto precisar. Mas eu preciso ser sincera com você, um dia você vai ter que sair. Vai precisar limpar a bagunça, arrumar a casa, abrir as janelas e arejar o quarto. Vai precisar enfrentar seus medos e juntar toda a coragem do mundo. Você acha que não tem, mas ela está escondida por aí. Você é brava, valente, forte. Olha essa merda toda que aguentou até agora. Quem fala é a sua consciência. Eu não vou deixar você desistir tão fácil assim.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Reencontro

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 13:19 0 comentários
   Dois anos passados desde que a moça sumira. O motivo era bem conhecido por Andrei. Ela deixara tudo muito claro na última visita, quando conversaram, namoraram e riram juntos na cama até tarde. No meio da madrugada ele acordou e tudo que encontrou foi uma carta e uma pulseira largada no tapete. A pulseira com a qual a presenteara no aniversário. Eu nunca quis julgar ninguém, mas neste caso me venho obrigado a falar que faltou garra e coragem ao nosso herói. Era muito claro para quem estivesse ao redor que ela era uma moça problemática, triste, precipitada, assustadiça, o tipo de pessoa que se assemelha a uma bomba relógio. Apesar de o tempo que tiverem de amizade e que passaram juntos ter amansado aquele coração vazio, era claro que ela partiria no primeiro momento que visse sua presença escurecer o futuro. Ela se via como um estorvo para Andrei. Na posição de nosso herói, eu não sei o que faria, mas essa não é minha posição nesta história e saber o que fazer é a obrigação dele. Foi com espanto que a encontrou sentada na cafeteria. Um passeio até a capital levou-o de volta a tirana que roubara seu coração. O que faltou no início veio de sobra no fim. Ele andou até a mesa dos fundos, pediu licença e sentou. Vamos agora observar a cena.
   O rapaz senta e olha para a moça de olhos marejados. Ela pensa em esticar a mãos e retrai em meio caminho. Ele então estica seus braços e alcança aquelas trêmulas mãos. Ela cora, sorri e começa a falar. As palavras saem como sussurros, embaçadas pelos soluços e lágrimas que teimam em cair. O rapaz levanta, com movimentos de extrema mestria, muda de local e senta ao lado da moça, tudo isso sem soltar sua mão. Ele abraça e tenta confortar aquela mulher que agora desaba como uma criança. E ele sussurra palavras ao pé do ouvido. Tudo que se consegue escutar da cena é um belo e delicado "obrigada" que escapa dos lábios daquela pobre moça. E seus lábios molhados agora são calados, com um beijo terno e profundo toda a cena chega ao fim.



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Café

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 05:08 0 comentários
   Foi com muita dúvida que Leonini entrou no café. Nunca andara por aquelas bandas, mas a sede era tanta que ele se viu obrigado a entrar no estabelecimento. Sentou em uma mesa de canto, notou como era um lugar duvidoso e se contentou com o fato de que não demoraria muito. Veio o garçom e ele pediu uma xícara de café. Enquanto esperava abriu o jornal que carregava e pôs-se a ler. Foi com surpresa que indagou ao garçom o que era aquilo quando o mesmo lhe entregou um envelope ao invés de uma xícara:
- Isso é exatamente o que o senhor pediu, uma xícara de café.
- Você por acaso acha que estou louco? Estou olhando nitidamente uma carta e não a porcaria de um café!
- Mas Senhor, é exatamente do que o senhor precisa, seu café.
   Levantou então aos xingamentos, carregando o envelope e esquecendo o jornal. Teria jogado fora se não contasse o seu sobrenome no remetente. “Ao Sr. Beloto” era o que dizia, em seu conteúdo apenas o endereço da próxima esquina. Foi com curiosidade que caminhou até a lá. Mal chegou, quando um camarada alto e careca, com uma baita japona preta lhe abordou. Perguntou se ele era o Sr. Beloto, ele acenou que sim. Recebeu de recompensa três tiros à queima roupa.
   Na cafeteria, o Ex.mo Marcontes, dono da boca, questionava o garçom o porquê do Sr. Beloto estar alegremente sentado em sua mesa, lendo o jornal e tomando café em vez de estar morto. O garçom temeroso respondeu que entregara a carta como exigido e que o vira seguir até o endereço.

   Sentado sem fazer a menor ideia de sua sorte, Tony Beloto apreciava o café e se punha a par das notícias do dia, sabia que seria corrido.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Adeus

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 10:58 0 comentários
   Respiro fundo e desço do carro. Há muito tinha ensaiado a coragem para ir visitar minha antiga rua. Eu sabia que ia ser difícil e um tanto complicado, todo aquele bairro carregava minha história. Foi naquela esquina que aprendi andar de bicicleta e está vendo aquele buraco mais à frente? Foi feito por mim. Eu e os meus amigos achamos uma boa ideia soltar um bombinha dentro de uma lata de concreto. Quando ela estourou a lata voou ao céu e caiu repleta de fúria. Destruí o gramado da dona Maria e fiquei de castigo uma semana. Hoje em dia não existe mais a casa e nem a dona Maria. O grama dela já partiu faz tempo, mas ainda tem o buraco. Acho que eles vão cobrir quando terminarem a fundação do prédio que estão construindo no antigo lote.
   Eu caminho pelas pedrinhas em direção à porta. Minha mãe achava bonito um jardim gramado com caminho de pedras. Sempre sonhou com isso. Quando casaram meu pai fez a tal trila, encheu a fachada de grama e plantou umas florezinhas. Era a trilha de tijolos amarelos dela. Vivia repetindo o lema, igual à personagem do seu filme preferido. Acho que o nome dela era Dorothy. Minha mãe fechava os olhos e dizia: “não há lugar melhor que o lar”. Agora não tem mais ninguém em casa. Vão derrubar na próxima semana. Adiei o quanto pude, mas aqui estou pronto para me despedir. O fato é que não é tão fácil dizer adeus a nossa infância. Vir aqui me dá pesar e alegria, muito sentimento junto e misturado. 
   Eu fui feliz o quanto podia. Corri pelas quadras, atormentei os vizinhos como qualquer moleque. Joguei bola, briguei e bati. Foi aqui que conheci a minha primeira namorada, o meu melhor amigo. Minha história contida em um quarteirão. Meu lar também sempre foi feliz. Mesmo trabalhando feito um burro, meu pai arrumava um tempo para ficar em casa. A gente jogava baralho, assistia a um filme e comia pipoca. Nunca vi uma pessoa amar tanto alguém como ele amava a minha mãe. Ela era a luz da nossa casa. Iluminava toda a família. Não importa quão ruim e miserável tinha sido seu dia, era só chegar em casa que ela espantava o desanimo e colocava a alegria no lugar. O sorriso dela curava tudo, e ela nos amava muito. 
   Nunca foi o plano dos meus pais vender a casa, mesmo com o novo complexo de imóveis surgindo. Mas aí veio o câncer e tudo mudou. Minha mãe morreu, sofreu muito e eu nunca vou entender qual foi o sentido disso. Por que uma pessoa tão boa e pura tinha que morrer justo de câncer? Ela não merecia, aliás, ninguém nunca mereceu. Meu pai não aguentava nem chegar mais perto da casa. Ele ficou um inferno. Ranzinza o tempo todo. Ninguém mais o aguenta lá em casa. Tive que vir fazer a mudança, assinar os contratos da venda do imóvel, resolver tudo sozinho e agora eu estou aqui. Vasculhando para ver se não ficou nada para trás. Dando até mais a minha infância. Despedindo-se de minha mãe. 
   Eu entro pela porta, subo as escadas e visito o meu antigo quarto. Ainda tem as marcas dos pôsteres que ganhava de brinde no fliperama. Tem também as marcas das figurinhas de jogadores de futebol que colecionava. Colava elas na parede rente a cama. Minha mãe ficava para morrer com isso. Visito o quarto dela. As paredes continuam no mesmo tom rosado. A tinta desbotou um pouco com o passar dos anos, mas mesmo assim continua intacto. Minha mãe tinha essa mania em manter a casa bonita. Ela dizia que a casa tinha que ser alegre, colorida, cheia de porta retratos, enfeites de galinha na cozinha é um monte imãs no quadro de recados.
   Eu desço as escadas, dou uma olhada rápida na cozinha, vejo se na sala está tudo bem. Saio pelos fundos, olho a garagem. Não tem mais nada lá. Volto para a sala e percebo algo estranho. Tinha alguma coisa ali no chão, perto da janela. Recolho e é um retrato meu e de minha mãe. Nós dois abraçados no gramado, ao fundo a trilha de tijolos dela, as flores do quintal e a grama do jardim. Ela sempre foi linda, nem a doença levou isso no final. 
   Eu não consigo mais segurar. Sento no chão, sozinho naquele lugar vazio. É a primeira vez que choro a morte da minha mãe. Eu não tive muito tempo para chorar, fiquei forte e lidei com tudo. Fiz esse favor para o meu pai, alguém tinha que cuidar das papeladas, da funerária, do caixão, do enterro e agora da casa. Respiro fundo e levanto. Seco os olhos na manga da camisa. Ajeito os ombros, bato a poeira da roupa e pego o retrato. Fecho a casa e vou para o jardim. Hora de ir. Adeus.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Túnel

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:48 0 comentários
   Três dias preso. Três dias trancado neste buraco. As pessoas já começam a ficar raivosas. A fome e a sede tiram a razão de qualquer um. Na noite passada ouvi gritos, tinham pessoas desesperadas chorando. Uma mulher desapareceu. No primeiro dia a coisa era diferente, todo mundo se apoiava. O plano era ajudar uns aos outros. Mas não adianta, a fome e a sede engolem a sanidade de qualquer um.
   Eu estava indo ao trabalho, era uma manhã normal de segunda. Acordei atrasado e fui desesperado pegar o ônibus. Passei pela mesma estrada que pegava todo dia, nem suspeitei quando entrei no túnel. Um estrondo, desespero e o fim. Tudo desabou. Teve carros e pessoas esmagadas, mas uma clareira se formou e os que sobraram ficaram presos afinal. Eu fiquei sem reação. Ninguém sabe o que fazer nesses momentos extremos.
   Quarto dia e agora as pessoas se agridem. Dois irmãos que sentavam ao meu lado no ônibus brigaram de manhã. Discutiram por causa da namorada do mais velho. Um matou o outro com uma pedrada. Assisti tudo atônito. A verdade dos relacionamentos cai em face ao medo. Não sei o que vai ser do próximo dia.
   Quinto dia. Acho que não vou durar muito mais. A fome e a sede me deixam acabado. Eu tento, mas mesmo respirar dói. Meu peito queima. Acho que amanhã vejo a morte.
   Sexto dia. Ouvimos mais um estrondo,  me pus a rezar. De noite uma senhora e uma criança morreram de fome. Não é outro deslizamento. São os bombeiros. Finalmente veio alguém nos ajudar. Primeiro veio o som da broca e depois fiquei cego pela luz. Ela veio do fim do túnel para anunciar que haveria outro amanhã. Não sei se sinto alívio ou medo. Nunca mais serei o mesmo.



sábado, 11 de abril de 2015

Apartamento 202

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:39 1 comentários
   Está um bocado vazio aqui dentro. E eu falo vazio, não só dentro desta casa, mas também dentro deste peito. Meu peito. Também estou muito cansada, essa paz toda não rende. Ela me prende, sufoca, grita em meus ouvidos. O grito mais ensurdecedor do mundo é o grito do silêncio. Corta como faca.
   Eu não queria essa vida. Não queria morar nessa casa. Não sei o que deu na cabeça me estabelecer em um tradicional bairro de família. Eu gosto do estouro, do tumulto, da carne sangrando e da vida fluindo. Mas eu vim parar aqui. Você avisou e agora digo que teve razão. Estou vazia. Entediada. Odeio isso
Minha vida tem se dividido entre trabalho, casa, mais trabalho e no final eu esperando por você. Passo o tempo contando os dias até você vir me ver. Você é o único agito que existe agora. A única razão de viver. O sol está batendo na janela. Tão quente que acho que vai derreter as paredes, o prédio eu e o mundo. O bairro é realmente bom e seguro. Em pleno fim de semana e só escuto as cigarras. Também ouço o sol rachando. Você vem logo não é?!
   No outro fim de semana esperei e esperei. Isso continuou o tempo todo. Na sua casa ninguém atende. Sua família não fala onde você está. Acham que me enganam dizendo que eu deveria entender. Seu irmão me passou o endereço errado de novo, tenho certeza que não me quer ver encontrando você. Essa semana tentei seguir aquele papelzinho que ele passou, tentei ver se dava em outro número. Vai ver o seu irmão errou. Mas não adiantou, acabei parando no mesmo lugar. Não sei a graça que ele viu em me dar o endereço de um cemitério.

Aurora decide passear

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:21 0 comentários
   Aurora resolveu caminhar em direção ao carvalho. Estava farta de mais uma vez ouvir seus pais brigando e discutindo sem parar. Afinal, por que eles estavam discutindo enquanto levavam a filha para passear? Não era justo as coisas serem assim, logo ela que se esforçava tanto em ser uma boa menina, ser educada, gentil e estudiosa. Não havia motivos para viver tão maltratada. Sempre entregava a lição de casa em dia, cuidava muito bem de seu gatinho, em casa ficava quietinha enquanto lia os livros que herdara da avó. Sempre mantinha seu quarto arrumado. Era tão boa garota. Tão exemplar. Os pais de seus colegas sempre a elogiavam por ser tão educada e bonita. Mas parecia que seus pais não viam nada disso. Discutiam e gritavam, esqueciam por completo a presença dela até lembrar, no meio da madrugada, que tinham uma filha e que a mesma deveria estar com fome, já que se esqueceram do jantar.
   Ao se aproximar do grande carvalho, estranhou a presença de uma enorme borboleta. Grande e de cores vistosas, pousada sobre uma bela orquídea. Era a maior borboleta que já tinha visto. Passear pelo parque da cidade era um de seus passatempos favoritos depois de ler. Adorava ver flores, árvores e ficar perto da natureza. Lembrou então de um livro que encontrara entre a biblioteca da avó. Nele uma menina passeava pela floresta quando, de repente, encontrava uma fada que lhe concedia desejos. Quem sabe não poderia ser real tudo isso? Pôs-se a seguir a criatura esperando que, se fosse uma fada, pediria como desejo pais novos. Melhor, só pediria que seus pais fossem diferentes. Não queria ser neta de outra avó e nem morar com outra família. Não teria os livros e nem teria o Mimi. Pensando nele, ainda bem que não estava com o gato, ele provavelmente já teria pulado na pobre borboleta. Na perseguição, acabou por rastejar entre uns arbustos retorcidos, seus cabelos de tão compridos se prenderam várias vezes nos galhos. Ela nem ligava, era uma excelente aventura. Seguiu a borboleta até por fim encontrar um lago. Era lindo. Flores se estendiam como um tapete ao seu redor. Mas era um bocado esquisito. Nunca tinha visto um lago por ali.

Segredos

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:18 0 comentários
Segredos sussurrados
Escondidos debaixo do cobertor
Soprados em silêncio no ouvido
Palavras vazias que ganham sentido
Parecem outras quando vazam da boca
Mentiras verdadeiras
Que nunca seriam ditas se não fosse no escuro
Arrepio subindo pela espinha
Subindo pela coluna e terminado em suspiro
Um abraço cúmplice
Um juramento tantas vezes proferido
Vindo da boca de tantos amantes
Um beijo sela o trato
Estes segredos não vão sair desse quarto
Ficarão sepultados em nossos peitos
E também nessas quatro paredes

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Maria

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:48 0 comentários
   Maria viveu a vida toda sendo só um adorno. Era bonita e isso realçava bem a casa de seus pais. Era de boa família e isso caia bem para os pretendentes. Acabou casando porque assim queriam, foi ser um adorno em outro lugar.
   Nunca teve opinião própria porque não era desejado. Balançava a cabeça concordando com o que era dito e isso a transformava em boa companhia. Não tinha muita fibra, muita alma. Quando não estava enfeitando ao lado de alguém, era esquecida. Sua desgraça era tanta, que até os filhos que teve olvidavam freqüentemente que tinham mãe.
   Os anos passaram, a vida se extinguiu. A casa ficou vazia, só sobraram os móveis, os quadros e ela. Se olhasse rápido nem ia perceber aquele bibelô de pessoa, encostado na janela, parecendo uma boneca.
   Maria morreu com a sua sina. Quando todas as criaturas vivas partiram, esqueceram que ela também estava viva. Passou o resto dos seus dias definhando na casa. Não comia, não dormia. Ao final definhou e ficou empoeirada como a mobília.



Oca

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:39 0 comentários
   Se você olhar bem no fundo dos meus olhos vai perceber que tudo não passa de uma máscara. Dá para enxergar as rachaduras, ela está se rompendo. O sorriso nunca soou tão falso ou tão difícil, a gentileza nunca pareceu tão forçada. 
   Caso se concentre, vai conseguir ouvir o vazio vindo de mim. Por dentro estou oca. Não tem muita coisa sobrando ao final. Sou como um espantalho, feito de feno e de pano, sem órgãos ou sentimentos, sem sequer um coração. 
   Tudo não passa de mera ilusão, tudo que é feito é só para servir as convenções. Cuidado ao encostar-se a mim, qualquer esbarrão pode quebrar a casca toda. Vou desmanchar e vão sobrar só cinzas no fim.

O fim

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:35 0 comentários
   O mais difícil era aceitar. Aceitar que o tempo passara e que as coisas mudaram. Que não eram mais as mesmas pessoas. O complicado era admitir que ambos haviam crescido em direções opostas e que os sonhos, antes compartilhados, agora se diferiam completamente.
   A dificuldade advinha em entender que todo aquele tempo, vivido junto, jurado de morrer lado a lado, havia chegado ao fim. Não passavam de dois desconhecidos, morando sob o mesmo teto, sem ter o que conversar. Absolutamente nada em comum.
   Era um desafio acordar cada manhã e olhar para a pessoa deitada ao lado sem se perguntar 'O que aconteceu com você? Como ficamos assim?', era também um desafio não se culpar nem culpar ao outro pelo ocorrido. O tempo passa e a vida vai junto. Nem sempre o que começa igual termina do mesmo modo. De vez em quando a gente tem que encarar o fim.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Balé

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 11:53 0 comentários
   Corria em direção ao estúdio com toda a velocidade que podia. Ia em direção ao seu refúgio, o único lugar que fazia se esquecer de tudo. Virou a esquina, atravessou a faixa de pedestres, o sinal em vermelho e parou em frente a uma porta de vidro. No alto liam-se as palavras "Estúdio de Balé Cassius Bergini".
   Tocou o interfone, esperou alguém atender e abrir a porta. Subiu as escadas escuras em direção à recepção. Falou com a atendente, cumprimentou quem encontrou no caminho e se fechou em uma sala. Eram só ela, o tablado, o espelho e as traves.
   Ligou o rádio e deixou-se envolver. Alongou os músculos, os braços e as pernas. Relaxou com o som das caixas de som. Começou então a dançar. Sem seguir nenhuma coreografia nem nada planejado, era apenas o corpo dela respondendo a música. Sentia nos ossos as notas musicais. Expressava com o corpo o que a alma dizia. A cada passo se esquecia da dor, dos problemas, das contas chegando, dos atritos no trabalho. Esquecia-se de tudo e no final nem lembrava mais o que a tinha trago até ali. Era feliz. Só alcançava a plenitude quando podia dançar pelo salão. Entre pliés e tantos passos de balé, finalmente se sentia viva. Dançou até o mundo sumir. Até seus pés sangrarem dentro das sapatilhas e a dor impedir de dar um movimento a mais.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Hoje você deu seus primeiros passos

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:29 0 comentários
   Hoje você deu seus primeiros passos. Começou caminhando meio trôpego, se apoiando em mim, tentando levantar e seguir sozinho. Você caiu um bocado de vezes, mas nem chorou. Sacudiu a poeira do corpo, escorou na parede, levantou e voltou a caminhar. No fim do dia não precisou mais de apoio.
   Foi um pouco triste no final porque pude avistar o futuro, um dia você vai caminhar por aí sozinho e não vai mais precisar de meus conselhos, do meu apoio e de mim... Eu não vou ser mais a pessoa para quem você corre quando tem medo, você vai seguir sozinho. Vou ser só a sua mãe.
   Espero que a determinação que você apresentou hoje nos seus primeiros passos siga com você para o resto dos seus dias. Que toda vez que a vida te derrubar você saiba reconhecer o erro e, sem reclamar ou chorar, levante e mostre do que é capaz. Eu rezo para que você realize seus sonhos com a mesma força que usou para realizar os seus primeiros passinhos.
   Você agora é só uma criancinha pequena, um dia vai entender o que eu falo. Quando você falhar pela primeira vez e o mundo te virar as costas, vou estar aqui. Vou continuar acreditando no seu potencial, serei o seu porto seguro se quiser, e vou torcer muito como agora torci quando você cismou de levantar e andar até o quintal.
   Eu te amo muito filho. Você sempre será o meu orgulho. Estarei sempre aqui quando você precisar de mim. Até quando você for velho e cansado, quando precisar, não do meu apoio, mas de uma bengala para acertar seus passos. Estarei sempre aqui te estendendo à mão, mesmo depois de partir.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Estrelas

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:44 0 comentários
   A luz acabou hoje na cidade, lá fora está tudo escuro. Talvez minha vida seja assim: negra, medonha, vazia. Não tenho mais nada para fazer em casa. Eu acabo começando a pensar. Penso em mim, nas coisas que vivi. Os momentos bons e principalmente os ruins. Acho que quando a luz se foi levou embora toda a esperança.
  Quando eu era pequena, costumava temer o escuro. Minha mãe vinha e me abraçava, dizia que ia ficar tudo bem, que eu podia deitar ao seu lado. Papai era diferente, não gostava de me ver ali. Eu chorava e me arrastava quietinha para o pé da cama, deitava no chão e rezava para ele não me mandar de volta para o quarto.
   Foi desde muito cedo que eu aprendi que às vezes as pessoas simplesmente não gostam de você. Eu pensava que se mudasse, as coisas iriam melhorar, era só eu ser do jeito que elas queriam. Entretanto aprendi a partir disso que não adianta mudar pelos outros, você só se torna mais estranha e deprimente. E continua sozinha.
   Fui caminhando assim. Os outros riam de mim, eu ria então de mim mesma. Melhor que chorar. Mas o tempo foi passando, não era mais o fato de ser esquisita, era também se ser feia, e chata, e o que eu já nem sei mais. Eu nunca entendi o porquê de ninguém gostar dos estranhos. O que tem de mal em ser diferente?
   Os anos passavam, uma amizade surgia ali, outra depois se perdia. O casamento dos meus pais que achava lindo e que iria durar para sempre acabou. Ficamos sozinhas. Papai nem veio para dizer adeus. Os anos correm. O ciclo continua. Acompanhada, sozinha, sozinha, amigos, estranha, sozinha, esquisita, gostamos de você, pensando bem não gostamos... Quando vi, ficou tudo vazio. Eu tinha um sonho? O que eu queria quando criança? Eu consegui alguma coisa com tudo isso? Eu estou chegando a algum lugar? As perguntas perturbam. Você se acha incapaz. A pior parte de a vida ser um ciclo, é que você nem estar sempre vai estar no alto. Uma hora as coisas viram e você acaba no chão.
   A luz partiu. Ficar em casa estava me matando. Para fugir dos meus pensamentos, corri para a rua. Surpreendi-me, as estrelas brilham mais do que o sol. Acho que entendo um pouco no final. Se nunca existisse a dor e o escuro, nunca veríamos como são belas as luzes da noite. Talvez as coisas melhorem um dia. Quem sabe, por minha vida estar agora tão negra, eu finalmente veja a luz.

O sol se pôr

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:19 0 comentários


Eu uma vez vi o sol se pôr
Era tudo tão bonito
De longe eu avistava as cores mudando
Amarelo, vermelho, laranja.
Eu tinha você ao meu lado
Naquela época era tudo mais possível
Sonhos se multiplicavam
Eu chorava, ria, amava
Vivia e via a vida ressoar
Vibrando como as cores do pôr do sol
Queimando em toda magnitude.
Hoje estou sozinha
O sol já se pôs e eu perdi todo o espetáculo.
Não vivo mais de amor e de poesia
Nem sei mais se sei viver.

Susana

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:13 0 comentários
   Era um dia nublado e Antônio estava caminhando devagar, atrapalhando as crianças que andavam de bicicleta na calçada. Ao sair da escola, no dia anterior, ele havia encontrado um caderno jogado no chão, bem no funda da classe. Ao pegá-lo como intuito de descobrir o dono, viu que se tratava de um caderno repleto de poesias e citações famosas. Também tinha algumas histórias e colagens. Não havia nada que denunciasse o dono, mas logo desconfiou de quem poderia ser: Susana.
   Fazia séculos que ele observava Susana, ela que sempre era uma menina quieta e soturna. Passava o tempo todo da aula escrevendo ou lendo qualquer coisa que não fosse referente à matéria. Ela sempre sentava ao fundo da classe, na cadeira do canto esquerdo, perto da janela. O caderno jogado ali definitivamente era dela. Apesar de ter vergonha de assumir, Antônio já havia perguntado uma porção de coisas sobre a menina para os outros, sabia tudo o que era possível saber sobre Susana. Onde ela gostava de sentar no recreio, os livros que ela pegava na biblioteca, as notas que tirava e inclusive seu endereço. O local de sua moradia foi arrancado de uma das meninas da classe que tinham marcado um dia de buscá-la em casa para realizarem um trabalho juntas na biblioteca. Ele não podia evitar, era o seu primeiro amor.
   Ele então estava se dirigindo para lá. Acordou mais cedo no sábado, arrumou-se e treinou na frente do espelho as palavras exatas para usar. Ainda que nervoso, sentia-se corajoso o suficiente para realizar a empreitada. Quando chegou ao exato número tocou a campainha. Não tardou muito uma menina alta e magra, de compridos cabelos negros que desciam até abaixo da cintura e uma pela branca como porcelana atendeu. Susana sempre o deixava nervoso. Ele gaguejou o que tinha vindo fazer ali e ela perguntou se queria entrar.
   “Desculpa a intrusão, mas é que achei esse caderno na escola e desconfie que fosse seu. Não quero incomodar, já vou indo.”
   “Não se preocupe, não vai ser incomodo ter você aqui.” Ela então o guiou por um corredor escuro, repleto de fotografias e quadros nas paredes. “Vai, entra aí”, falou apontando para um cômodo.
    “Esse é o seu quarto?”
   “É sim. Sei que é meio esquisito, mas gosto dele desse jeito.”
   O quarto parecia um lugar fora do universo. As paredes pintadas de preto repletas de frases em prata. Aos fundos um mural de imagens de uma menina com um coelho branco, depois a mesma menina conversando com um gato no alto de uma árvore. Imagens de uma garota entalada em uma casa com os braços se projetando pelas janelas, essa menina se repetia em diversas imagens e ocupava toda a parede aos fundos do quarto. Dividindo a decoração se via uma estante repleta de livros e ao lado uma escrivaninha pequena com a foto de uma bela mulher. Essa mulher era uma versão mais velha de Susana, linda e sorridente. Junto do retrato havia flores e alguns livros. Em pequeninos porta retratos se via a foto dessa mesma mulher abraçada em uma menina, que muito podia ser confundida com a Branca de neve de tão branca com bochechas vermelhas.
   “Olha aquela moça ali é sua irmã?”
   “Não, ela era a minha mãe.”
   “Poxa a sua mãe é bem bonita. Ela trabalha com o que?”
   “Ela morreu quando eu tinha 10 anos.”
   Tudo que Antônio conseguiu fazer foi manter o silêncio. Respirou fundo e tomou coragem para retomar a conversa e tentar consertar o constrangimento.
   “Desculpa não quis te... Quer dizer sinto muito.”
   “Tudo bem. Eu sei que não fez por mal.”
   “Você tem um quarto bem bacana com essas imagens e esses livros e aquela frases ali.”
   “Obrigada. Esses eram os livros favoritos da minha mãe, e aqueles dali na mesa são os que ela escreveu. Ela era escritora. Eu deixo no canto como se fosse um altar para ela. São o bem mais precioso que tenho. Quanto as frases, são citações famosas que minha mãe deixava marcada nos cadernos dela ou nas páginas dos livros. Já as imagens são desenhos do Alice No Pais da Maravilhas, era a nossa história favorita. Fizemos essa colagem quando eu era criança. Eu não quis apagar quando ela morreu mas tirei as paredes alegres cor de rosa e pintei de preto para mostrar o meu luto.”
   “Você era bem ligada com sua mãe não é?”
   “Éramos melhores amigas...”
   “É por isso que você é sempre tão quieta na escola e está sempre com uma cara de choro?” ela o encarou com os olhos arregalados, “Olha desculpa, não queria me intrometer.”
   “Ok, sem problemas. Sim eu sinto muita falta dela, acho que isso teve um reflexo negativo no meu relacionamento interpessoal, ou pelo menos foi o que a minha médica disse. Minha avó fica maluca de me ver pra baixo e me obriga a fazer sessões de psicanálise há uns três anos.”
   “Que merda.”
   “Pois é.”
   “Você mora com ela?”
   “Não eu vivo com meu pai. É meio difícil encontrar com ele por aqui, ele foge de mim, da casa e de qualquer coisa que lembre a minha mãe. Já eu sou o contrário. Enquanto ele foge de tudo eu virei uma obcecada pela memória de minha mãe.”
   “Se é o seu jeito de lidar com o luto eu não vejo nada de mal nisso.”
   “Tirando que é um luto meio prolongado... minha médica disse que preciso fazer amigos, e o meu pai está me atormentando por isso. Ele ameaçou jogar as coisas dela fora se eu não mudasse, então deixei meu caderno de propósito e prometi para minha mãe que faria amizade com a primeira pessoa que o encontrasse. Ainda bem que foi você e não nenhuma daquelas meninas chatas.”
   “Que bom. Eli umas coisas do caderno então desculpa. Péssimo início de amizade.”
   “Tudo bem não era nada secreto mesmo. É o meu caderno de inspiração e treino. Eu quero um dia ser escritora como a minha mãe. Se eu ficasse com raiva de alguém ler seria um péssimo início de carreira, no futuro eu vou ser lida e criticada mesmo não?!”
   “Achei tudo muito bom. Meio melancólico pro meu gosto, só que bacana. Vai fazer sucesso um dia, principalmente entre a galera deprimida e gótica.”      

    Susana então riu, e Antônio percebeu que era a primeira vez que via essa garota sorrir. Fez então uma promessa mental de nunca mais deixar essa garota sofrer. Ele prometeu ficar do lado dela e acabar com toda aquela tristeza e solidão que a mãe causou a partir.

terça-feira, 24 de março de 2015

Monstros

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 11:15 0 comentários
   - Mas mãe, eu não quero dormir no meu quarto!
   - Não tem mais desculpas Pedro, você já vai fazer sete anos. Já é um mocinho, não pode mais dormir com a mamãe e o papai.
   - Mãe, os monstros vão me pegar. Eles querem me levar embora. Eu tenho medo!
   - Chega disso Pedro. Escute sua mãe. Acabou essa choradeira, você vai dormir no seu quarto. Não quero ouvir mais nenhuma palavra desse assunto.
   Foi assim que se iniciou a noite na casa dos Nogueira. Mais uma vez seu filho reclamava de dormir no seu quarto, mas Alberto já tinha decidido por um fim nessa história. Desde os três anos, quando Pedro havia deitado pela primeira vez em um quarto novinho e só seu, ele chorava e ia dormir com os pais. Era sempre a mesma história. Monstros se escondiam no escuro e diziam que o levariam.
   Foi na primeira noite dos três anos que os pais de Pedro acordaram pela primeira vez assustados com barulho do filho gritando e esmurrando a porta. O menino se encontrava assustado, chorando e com a roupa manchada de sangue devido a um machucado no cotovelo. Por todos esses anos eles evitaram então deixar o menino sozinho, entretanto depois que a terapeuta havia dito ser importante ensinar o garoto a enfrentar seus medos, concordaram em insistir no assunto do quarto. Arrastaram então Pedro e trataram de fechar a porta com chave para o menino não fugir.
  Foi uma noite agitada, escutaram o menino gritando, mas a dureza de Alberto não permitiu que sua esposa regatasse o menino. Quanto mais a criança batia na porta e pedia para sair, maior era a resolução do pai.

   Na manhã seguinte quando abriram a porta do quarto depararam com um cenário de guerra. Todos os brinquedos e roupas estavam espalhados pelo chão, à cama se encontrava revirada e havia sangue no edredom. Contudo, o mais assustador foi o vazio do local. Não se avistava criança alguma, apenas marcas de unha de alguém que outrora se agarrara a porta. 

sábado, 21 de março de 2015

Mentiras

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:14 0 comentários
   Eu te amava muito, mas você me traiu e me abandonou, e agora tudo o que eu tenho é essa casa vazia para me fazer companhia. Tudo que vejo ao meu redor é dor. Tem tristeza entalhada nessas paredes. O vento entrando pela janela me assusta. A sala vazia me dá calafrios. A cama agora parece um país inteiro. Tão enorme e tão fria. 
   O que mais dói não é ter confiado em você, por amor a gente sempre confia. O que mais machuca é você ter quebrado tudo, mentido e nem voltado para pedir desculpas. Me deixou aqui sem ar, sem teto, sem rumo, mas eu vou seguir em frente. Eu sou uma mulher forte, mesmo sozinha. Eu tenho pernas para caminhar, mesmo não tendo mais o futuro que a gente dividia. 
   Eu consigo seguir em frente quebrada. É só colar tudo e ir. Para onde vou é que não sei. Eu costumava saber, mas agora me parece uma grande mentira. Tudo bem. Você decidiu acabar com tudo, fingir que nada aconteceu. Você virou outra pessoa. Eu fiz de tudo para te acompanhar, para crescer com você, mas você decidiu que era melhor uma vida em que eu não estivesse junto. Preferiu acreditar que o caminho era mais livre sem alguém do seu lado, preferiu acreditar que ia ser mais feliz sem mim. 
   Tudo bem. Eu já vou. Eu fico com a casa vazia, com os CDs que ninguém quer, com os móveis usados e com a tevê velha. Você pode levar o do bom e do melhor. Pode ficar com o dinheiro, com a liberdade, com o orgulho. Eu luto e reconquisto tudo de novo. Vai doer para sempre e a ferida nunca mais vai sumir, mas eu consigo. Então adeus, você não ficou para ouvir minhas despedidas, mas vou acenar até você sumir. Depois eu viro junto os trapos e sigo com a vida

sexta-feira, 20 de março de 2015

A maior aventura

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 08:00 0 comentários
   “Você não acha que viver é a maior aventura do mundo?”
   “Hã? Mas que assunto para essa hora!”
   “Sério. Nós nascemos e somos jogados no mundo sem pedir. Temos que crescer e desenvolver sem muita ajuda de ninguém. Não existe nenhum manual ou explicação que nos diga como proceder. De vez em quando a gente se perde, erra e tem que começar tudo de novo. Você tem que aprender a conviver desde criança com um monte de estranhos e a encontrar o seu lugar no mundo. É uma aventura descobrir quem você é. É uma aventura encontrar qual é o seu sonho ou propósito na vida. Também é uma baita de uma aventura lutar por tudo isso depois. Sabe, é difícil não mudar os seus valores ou ser corrompido enquanto a vida passa. Você também não sabe nada sobre o amor, que sozinho é uma enorme aventura, até que você se descubra apaixonado. Hoje eu acordei e pensei: ‘Como eu vim parar aqui?’ e a resposta dessa pergunta são as escolhas que fiz. Eu decidi sozinho, errando bastante, até chegar onde estou. A melhor parte é que essa aventura só acaba quando morremos. A gente é incrível, infinito, não existe nada que não possamos fazer. Se você quiser mudar tudo na sua vida agora você pode. Nós podemos ser quem ou o que quisermos. É ou não é uma aventura?”
   “Pensando bem até que você tem razão, mas filosofar às sete horas da manhã não é legal. Tô com muito sono para pensar nisso agora. Ah, aí vem meu ônibus. Até mais Mateus, a gente se vê mais tarde.”
   “Até e boa sorte na aventura.”            

   “Para de besteira e vai trabalhar.”

quinta-feira, 19 de março de 2015

Terceiro andar

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:48 0 comentários
   Corri escadas acima desesperada. Tropecei nos degraus e quase caí. Acabei torcendo um pouco o tornozelo, mas isso não me impediu, corri como se não houvesse amanhã. Corri porque ao final de tudo estava a minha felicidade. Eu corri como nunca tinha feito na vida, lágrimas caíam pela minha face, em meu peito o coração parecia explodir.
   Cheguei ao fim do quinto andar, bati na terceira porta e esperei que ele atendesse. Enquanto os segundos passavam, milhões de imagens surgiam na minha cabeça. Nós passeando pela praça, indo ao cinema, abraçados em um dia frio. Ouvia a voz dele me dizendo “eu te amo.” Eu ficava revivendo a minha resposta, o silêncio. Na minha mente a imagem dele se afastando desolado não parava de repercutir. O vazio que eu senti quando percebi que não haveria mais nós dois gritava e me tragava. Eu só podia repetir “Não é tarde! Ainda não é tarde!”
  Ele então abriu a porta. Primeiro surpreso, depois calado. Eu tinha que agir, falar tudo que queria. Dizer claramente o porquê de estar ali.
   “Desculpa vir tão tarde... eu tentei fugir, mas não consegui. Você disse que me amava, não disse? Disse também que era a última vez que esperaria por mim, não é? Sinto muito por demorar, mas é que eu não podia. Olha eu tenho esse muro em volta do meu coração e ele é feito para não deixar ninguém se aproximar, porque os outros podem me machucar. Eu já sofri muito. Eu sei que você é diferente, você me mostrou isso tantas vezes mas é que eu tenho medo. Mas quando você sumiu...Quando eu vi que não existiria mais nós eu sofri. Eu não quero te comover para você mudar de ideia e não dizer que é tarde demais, mas eu realmente chorei muito. Droga, estou chorando de novo. Você sabe que eu odeio chorar! Certo! Eu quero ficar com você. Eu te dou meu coração, e te deixo quebrar essa barreira que existe envolta de mim porque eu não tenho mais medo. Você pode partir meu coração, eu deixo. Acho que ficar sem você dói mais.” Ele não disse nada só havia o silêncio. “Droga diz alguma coisa. Por favor.”
   “Deve estra meio frio aí no corredor e os vizinhos devem estar adorando te ouvir. Quer entrar?”
   “É claro seu idiota.”
   “Mas só deixo com uma condição: você tem que prometer ficar aqui para sempre. E também quero ouvir você dizer aquelas três palavrinhas de novo.”
   “Babaca! Tá bom, eu prometo!”
   “E...?”
   “Droga, EU TE AMO.”
   “Ok, agora pode entrar.”

   Ele então me abraçou. Nós dois choramos juntos, depois percebemos que a porta estava aberta. Rimos juntos, fechamos a porta e no caminho da cozinha acabamos nos beijando e caindo no sofá. Nunca senti tamanha felicidade. Agora sabia onde ela tinha se escondera o tempo todo, bem aqui.

sábado, 14 de março de 2015

O dia em que vi um livro

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 19:20 0 comentários
*Antes de começar devo dizer que essa é uma cena de uma história que vem há muito tempo habitando minha cabeça. É sobre uma garota especial e sobre o mundo em que ela vivia. E fala também sobre como ela conseguiu mudar um monte de vidas. Vai parecer meio confuso porque é só uma cena dessa história toda mas decidi escrever para o desafio desse dia*


Eu caminhava pelas ruas da Grande Nação naquele dia. Havia acabado de sair do Instituto de Ensino onde escutei por horas seguidas a mesma ladainha de sempre. Coisas sobre como a união dos últimos países existentes, após a grande guerra, havia originado o nosso Estado proporcionando alimento para as pessoas famintas, maior justiça, igualdade... Sempre a mesma história. Eu era o único naquele lugar que não acreditava muito no que ouvia. Toda a paz e prosperidade que anunciavam nas propagandas me pareciam forçadas, além disso a cada dia cresciam as denúncias de novos membros integrantes da resistência. Também crescia apreensão de civis portando livros. A maior e mais perigosa arma de nossa época. Uma das poucas coisas que o governo proibia. Se tudo era tão maravilhoso, por que tantas pessoas se revoltavam?
   Eu não sei o motivo de ter pego um atalho diferente ao voltar para casa. Nem sei também o porquê de ter parado num beco esquisito e sem saída. A única coisa que posso dizer é que esse fato mudou toda a minha vida.
   Acabei me perdendo enquanto seguia por umas ruas aleatórias do centro da capital. Parei em um beco sem saída, onde uma sombra me chamou a atenção. Me aproximei por alguns metros e vi que a sombra se transformava em uma mulher. Ou melhor uma menina. A verdade é que não vou saber dizer muito sobre ela. O seu rosto parecia ser de um anjo. Tinha longos cabelos pretos e uma franja que caia sobre a vista. Olhos profundos de quem conhecia toda a verdade sobre o mundo. Engraçado que o mais atraente não era sua aparência, mas o fato de estar lendo um livro.
   “O que você está olhando?”
   “Ah, não é nada. Me desculpa, já estou saindo é que entrei aqui. Acho que me perdi mas não te vi lendo, quer dizer não estou aqui.”, acho que eu nunca teria terminado de falar se não fosse o desespero acabar me fazendo cair ao derrubar uma lata de lixo. Ela começou a rir.
   “Você é engraçado. É estudante?”, foi o que disse enquanto olhava minha bolsa, “Não entendo como alguém consiga acreditar naquelas bostas que ensinam, mas você parece diferente. Você falou comigo. Você insinuou ter visto o livro. A maioria das pessoas sai correndo ou não tem coragem de dizer o nome disto” disse me mostrando o seu exemplar. A capa era velha, as páginas pareciam mais antigas que o tempo. Como ela conseguira isso era um fato surpreendente. Me parecia ser inofensiva demais para fazer parte dos revoltosos. 
   “Sem querer me intrometer mas isso é crime. Você deve saber que não pode portar isso. Olha eu posso te ajudar a se livrar desse troço. Sei que deve ter achado pelo lix...”
   “Eu não sou uma coitada que achou um livro no lixo. Na verdade tenho uma biblioteca e tanto. Quanto a mim não se preocupe, eu sou grandinha e sei me virar. Posso parecer frágil mas garanto que um policial não duraria um minuto lutando comigo.” Eu engoli seco. Por essa não esperava.
   Foi quando o exterior nos atingiu. Eu estava tão hipnotizado por ela e seu sorriso meigo, que era como se o tudo tivesse silenciado e parado para nos assistir. Enquanto eu falava com ela, não existia mais ninguém no mundo. Do início da rua um barulho da patrulha pois um fim ao momento.
   “Acho que fomos interrompidos. Vem por aqui.”, disse isso enquanto me puxava pela camisa levando-nos até o muro, ela então empurrou uma caçamba de lixo e revelou um bueiro. Descemos por ele e corremos pelas alamedas do esgoto sem fim.
   Viramos por várias esquinas e tinha certeza de que tínhamos nos perdido até que ela parou.
   “Pronto! Não posso te levar mais longe do que isso mas aqui não vamos ser pegos.”
   “Nossa, você corre bem... Arf... Mal consigo respirar... Acho que você entende dos esgotos... Corre muito bem hein?”
   “Respire fundo e depois fale”, ela então riu de novo, a coisa mais mágica que já vi na vida. “Olha, eu não queria te causar problemas, e seria um problemão se te vissem comigo, e não é só pelo livro. Eu gostei de você por isso vou te avisar uma coisa. Cuidado com o que te dizem no instituto. Muitas mentiras são mascaradas com umas palavras pomposas. Tem muito mais gente sofrendo por aí do que no passado. Uma guerra enorme está rolando lá fora e ela está quase chegando aqui. Quando ela atingir os solos dessa cidade dias negros virão. Se fosse você pegaria sua família e sairia da cidade. Não sei para onde vão mas precisam dar o fora daqui. É muito perigoso mesmo. Eles precisam culpar gente, sumir com algumas pessoas, arrumar bodes expiatórios, inocentes vão ser atingidos nessa. Você parece ser legal então espero que consiga se safar do problema. Toma, pode ficar com esse livro aqui. É legal. Não precisa levar tudo o que diz ao pé da letra mas ele ajuda as pessoas a terem fé. E também abre os olhos para a realidade. Mas esconda bem, ok?”
   “Uhum.” Eu não consegui dizer muita coisa. Acho que sua voz me atordoava. Incrível como dois segundos após botar os olhos nela já estava apaixonado. Incrível como tudo tinha cor e como eu, um medroso indescritível, agora estava com um livro na bolsa.
   “Pode subir por aqui, vai parar na avenida principal.” Enquanto dizia essas palavras me apontou umas escadas velhas em ruína. Como ela disse para subir, julguei ser seguro.
   “Adeus e obrigada pelo livro. Espero te ver de novo e poder devolver ele.”
   “Espero que não nos vejamos, mas gostei de te conhecer. Você me lembra muito uma pessoa que conheci há muito tempo. Tempo demais para qualquer um dessa cidade se lembrar... Adeus guri e boa sorte!”
   Acabei saindo na avenida como ela falou. Peguei o caminho certo e rotineiro e depois me vi em casa. Quando subi as escadas para avisar meu pai que havia chegado, me surpreendi com mais visitas em seu escritório.
   “Muito bem senhor Ministro, acabamos de receber notícias dos rebeldes. Parece que a comandante geral das tropas do sul foi vista pela cidade. A presença dela aqui indica claramente guerra. O avanço deles se mostrou inevitável. Vai ser difícil conter os esforços e acalmar os civis. Principalmente essa daí. Causou muitos estragos no sul. Ela propaga ideias, e dizem que anda por ai com uns livros...”
   “Tudo bem capitão. Obrigada por me deixar ciente. Realmente com uma aparência dessas qualquer um acredita no que diz, mas nosso governo se encontra a salvo nas mãos de militares competentes como o senhor. Meu filho, demorou muito hoje, o que foi, porque esse espanto?”
   “Desculpe pai, não queria interromper a sua reunião. Eu me perdi na cidade foi só isso. Achei que já tinha visto a garota dessa foto mas era engano, por isso essa impressão.”
   “Tudo bem capitão pode se retirar, e filho, vá para o seu quarto. Mais tarde vamos ter a visita do ilustre Supremo. Quero você bem apresentável.”
   “Entendi pai. Estou subindo então. Até mais capitão.” Quando me tranquei no quarto pude parar para refletir sobre os acontecimentos e sobre como eu havia conhecido e me apaixonado por uma das líderes das forças rebeldes. Agora entendia o conselho que havia recebido. Realmente uma tempestade estava por vir. Retirei da minha bolsa o livro e observando bem consegui ler o nome. Bíblia. Um tanto engraçado.

                          

quinta-feira, 12 de março de 2015

Querido diário (parte I)

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 12:09 0 comentários
Querido diário,
   Desculpe por andar sumida durante tanto tempo é que as coisas estavam complicadas na escola. Estava em semana de prova e você bem sabe como sou ruim em matemática. Tive que estudar redobrado para conseguir alcançar a media desse mês.
   Estou escrevendo em você tarde, acabei de chegar da noite mais incrível da minha vida e agora que você já me desculpou pelo sumiço posso te contar as novidades. Lembra que comentei que o grêmio da escola estava organizando um baile igual aqueles dos filmes americanos? Então o baile aconteceu e foi hoje! Estou tão feliz! Espera que vou te explicar tudo do começo.
   Acabei de falar que tive que estudar redobrado... Então a professora anunciou que o gratíssimo do Rodrigo ia dar monitoria para os alunos que desejassem, e é claro que me candidatei para as aulas. Aconteceu então um milagre! Ninguém mais queria fazer a monitoria. Fui então estudar depois das aulas na biblioteca acreditando que iria encontrar com todo o pessoal da sala quando chego imagina a situação! Vi o Rodrigo sozinho sentado naquela mesa dos fundos da biblioteca me esperando. Estudamos durante a tarde toda e mais três dias seguidos. O Rô se mostrou ser muito mais que um cara legal e bonito. Ele também é tão engraçado e inteligente. Nunca pensei que seria tudo isso.
   Pois bem, estava chateada que ninguém tinha me chamado para ir ao baile (porque o grêmio decidiu que todo mundo tinha que ter acompanhante igualzinho os filmes) e fui para a minha última monitoria na véspera da prova meio deprê.  Rodrigo então conversou comigo sobre a matéria, perguntou sobre o livro que estava lendo (que por sinal é Jogos Vorazes e estou achando muito bom!), disse que já tinha lido e gostava muito da série e inclusive perguntou se já tinha visto o filme da série. Eu disse que não. Então ele perguntou se eu gostava de dançar e sair e tal. Eu disse que sim, e aí ele falou que estava com vergonha, mas queria saber se eu tinha acompanhante para o baile! Acho que paguei mico na hora porque fiquei muito vermelha e sem graça. Senti tanto embolo no estomago que até tive vontade de vomitar, mas respondi que sim e combinamos a hora que nos encontraríamos na porta da escola no sábado, que seria o dia do baile. O grêmio marcou essa data para comemorar o fim das provas.
   Como tudo isso foi numa quarta feira fiquei louca. Tive que arrumar vestido, pensar no que fazer no cabelo, arrumar sapato procurar uma maquiagem legal na internet para copiar. Nem preciso dizer que acabei não indo bem na prova por passar a noite toda pensando na festa. Ainda bem que minha mãe não me proibiu de ir. Fui mal, mas nem tanto assim, consegui a média na risca para passar.

   Chegou o sábado e eu estava muito nervosa. Acabei usando um vestido rosa balonê fofo que minha irmã tinha comprado para formatura do ensino médio ano passado, mas não usou. Fim uns cachos no cabelo e olhos de gatinho na maquiagem. Quando o Rô me viu disse que eu estava linda! A gente se divertiu e dançou noite toda e tudo foi como um sonho! Conversamos sobre nossos gostos em comum, sobre nossos filmes favoritos, livros que gostamos. Ele gosta das mesmas bandas que eu! E a melhor parte vem agora, quando nos despedimos combinamos de sair em um encontro. Amanhã ele vai me levar para o cinema para vermos a adaptação de Jogos Vorazes. Agora vou terminar o meu livro porque não quero levar spolier amanhã, e também dormir senão não vou aguentar acordar para sairmos. Estou tão feliz que, mal cheguei da festa, vim escrever. Agora que te contei a história toda, sinto que foi mesmo verdade tudo que aconteceu. Boa noite e até amanhã com novas novidades diário. Não vejo a hora de te contar sobre o que vai acontecer.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Seasons

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:07 0 comentários
   Eles se conheceram na primavera quando tudo era mais feliz e colorido. Nas ruas as árvores brilhavam em flor. Ele sorriu para ela. Pediu desculpas quando derrubou o sorvete sujando toda a camisa. Ela disse que não era nada demais. Saíram juntos e se divertiram. Ela nunca tinha sido mais feliz na vida. Ele era tudo o que ela sempre sonhou.
   Foi num verão que se casaram. Vestida de branco ela entrou na igreja. Todos os amigos e familiares choravam. Enquanto seu pai a levava ao altar não aguentou. Chorou também. Disseram sim e se beijaram durante toda lua de mel. Parecia que a felicidade nunca teria fim.
   Era outono quando as dívidas chegaram. A casa nova era meio cara de se sustentar. Para isso trabalhava até tarde em dois empregos. Já ele se sentia inútil por estar desempregado. O cachorro deles fugiu quando entravam pelo portão. Um carro passou por cima dele. Brigaram até tarde da noite. Ele foi embora batendo a porta e ela chorou abraçada no travesseiro. Chorou até as lágrimas secarem e o cheiro dele sumir dali.
   O inverno corria quando ele voltou. Estava bêbado e fedorento. Não era mais o mesmo de antes. Não ajudava, não ria, só bebia o dia inteiro. Quando ela desagradava ele a agredia. Perguntava a Deus até quando isso iria durar. Durou até ela ir parar em um hospital. Cinco pontos na testa e um braço quebrado. O que o laudo não dizia era que seu coração também estava partido.
   Foi numa primavera que ela criou coragem, juntou todas as coisas que conseguiu e saiu de casa sem avisar. Deixou para trás o dinheiro e os documentos. Lembrou de levar a esperança. Mudou para a casa de uma amiga. Tratou de curar os machucados e o coração. Reaprendeu a confiar. Só não aprendeu a amar de novo. Isso ainda era um bocado difícil.
   É verão novamente. Se você olhar pela janela vai vê-la passando. Quem vê seu sorriso nem imagina o que aconteceu. Não carrega raiva, rancor ou ódio. Reaprendeu a amar. Só não encontrou alguém que mereça o seu coração. Ainda. Não tem medo. No lugar dele nasceram novos sonhos. Caminhou pela calçada até chegar à sorveteria. Pediu o de sempre e partiu.


segunda-feira, 9 de março de 2015

Feridas

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:01 0 comentários
   As coisas mais dolorosas são sempre as mais difíceis de admitir. É mais fácil fingir que os buracos de seu coração não existem, pintar tudo com uma tinta bem bonita e esquecer que as feridas estão lá. De vez em quando alguma coisa é tragada para dentro delas, então você faz uma barreira, cria uma contenção, mascara tudo e volta. Se faz de grande e forte. Com o tempo a gente se acostuma.
   Às vezes as lembranças voltam para te cutucar. Deixam uma dúvida, uma pulga atrás da orelha. As memórias mais torturantes são sempre aquelas que cismam em bater na sua porta ás quatro da madrugada para lembrar o quanto você é sensível.  Você primeiro ignora, depois não aguenta e abre a porta. Quando vê o que fez, tenta impedir que entrem com toda a força na sua casa. Elas então destroem tudo e te deixam abalada, você chora e pergunta se algum dia as coisas vão mudar. As visitas que não são bem vindas são aquelas que mais gostam de aparecer.
   No dia seguinte você sorri, coloca sua armadura e sai para o mundo. Protege-se com espada e com escudo. Faz de tudo para se defender. Se alguém encontra uma brecha você revida. Não pode desmoronar ali.
  Quando a maré abaixa, você vai lá e remenda as feridas do seu coração. Faz sua mente ficar quieta. Lê um livro. Pinta uma figura. Tenta manter-se distraída. Se você der ouvido para as lembranças elas vão invadir sua vida de novo e destruir tudo que você teve o maior trabalho para concertar. Ai de você se fraquejar! As memorias estão só esperando o momento para te atacar no ponto mais fraco. Se der telha não vai conseguir resistir. Aquela vozinha não vai parar de falar na sua cabeça e do buraco tão cedo você sai.

  Para levantar é difícil. Não da para esperar uma mão ou algum cavalheiro de armadura brilhante lançar uma corda e te ajudar. Você precisa ter força. Com um arco mirar o céu e acertar a lua. Fazer dela um impulso e voar para longe. Você tem que criar asas e ir o mais alto possível. Deve alcançar o lugar mais bonito da galáxia, depois mostrar a língua para aquelas coisas chatas que tanto gostam de incomodar. Você tem que vencer e esfregar na cara delas que conseguiu. E também tem que rezar para que elas não voltem nunca mais para te ferir.

domingo, 8 de março de 2015

Fadas

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 13:50 0 comentários
   Há muito a Rainha via seu povo sofrer. Os humanos já não mais acreditavam no povo antigo, rejeitavam a existência das criaturas mágicas, ofuscados com o conhecimento que obtiveram no decorrer dos anos. Seu povo padecia.  Ela não queria ver seus súditos apagados da terra como tantos outros seres mágicos tinham sido. Morriam de fome por não terem mais o seu alimento: a crença dos homens.
   Saiu naquela manhã com apenas um objetivo, encontrar uma nova terra. Um novo lar. Buscou pelos prados e pelos campos mais floridos. Caminhou pelos mais belos lagos e rios. Dor emanava em seu peito ao lembrar que há muito tempo atrás encontraria vários de seus irmãos pelo caminho. Agora não encontrava mais ninguém.
   No fim de um bosque, já na divisa entre a terra e o mar encontrou o seu destino. Logo após uma longa escarpada, se via um pequeno caminho de terra que se tornava invisível com a subida da maré. Ao fim do caminho surgia uma bela ilha, nunca tocada pela mão dos homens. Em tal lugar seria fácil erguer a barreira mágica e com isso separar seu mundo do agora novo mundo dos homens. As fadas já não tinham lugar nesse novo reino de ciência e religião. Os poucos que ainda acreditavam nelas morriam na fogueira na inquisição.
   Com seus poderes, dobrou o ar da manhã e o orvalho criando uma barreira invisível. Se aproximou dos animais que ali viviam pedindo permissão para compartilhar de seu lar. Com leve toque moldou a seu gosto um pequeno lago, aplanou morros para formar pradarias, fez brotar todas espécies de flores no chão e nas árvores. Seu novo reino seria o mais belo do mundo. Ali todas as fadas estariam protegidas.
   Na mais linda colina, agora cercada de um belo mar de flores, ergueu seu novo castelo. Ele seria feito das gotas da chuva, das pétalas de rosa e da bruma do mar. Seria feito também da madeira do melhor e do mais puro carvalho. Seria aconchegante para todas suas irmãs. Seus corredores teriam o tapete feito do mais verde e belo capim. As cortinas seriam da seda mais perfeita.

   No fim da tarde viu seu árduo trabalho concluído. Voltou a terra dos homens para buscar todas suas irmãs. Levaria elas para a segurança e aconchego de seu novo lar. Assim nasceria o País das Fadas. O mais belo lugar que nenhum ser humano jamais viu. Criado com todo o amor que a Rainha tinha por seu povo. O lugar em que o sol e a lua jamais dormiam, e que os anos passavam lentamente.

sábado, 7 de março de 2015

O poder das palavras

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 14:46 0 comentários
  Minha mãe sempre me dizia que nomes tinham poderes. Que você podia moldar cada coisa a sua vontade dependendo do seu nome. Os nomes também definiam que tipo de pessoa você iria ser. Minha mãe também me ensinou que as palavras estão ligadas com o nosso futuro, ela dizia “Filho, as palavras podem modificar todo o nosso destino. Muito cuidado com o que faz e diz.”. Eu cresci então com a estigma de me tornar grande, de acordo com o nome que havia recebido em meu nascimento. Ainda não entendia muito bem o que ela queria me ensinar quando me contou todas essas coisas. Foi só muito tempo depois que aprendi.
   Em minha aldeia havia todo tipo de pessoas. A diferença é que você sabia muito bem o que alguém era dependendo de como vivia. Os gordos eram obviamente ricos. Os maltrapilhos eram sempre pobres. Os instruídos eram nobres.  Tive um bocado de sorte na vida. Minha família não era rica, mas tínhamos a condição de nos sustentarmos bem numa fazenda aos arredores da aldeia. Produzíamos trigo e cevada, as quais vendíamos para os padeiros da região. Um trabalho árduo mas suficientemente lucrativo para se viver. Apesar disso, meu sonho ainda era de morar na cidade grande.  Viver em minha pequena aldeia não era o suficiente para mim. Queria ser alguém maior. Fazer algo mais útil e lucrativo. Ter um lugar de prestígio na sociedade.
   Durante a minha infância pude conhecer um jovem professor. Ele que era filho de nobres de uma pequena cidade distante acabou por passar um tempo em nossa fazenda. Durante a sua estadia pude aprender a ler e escrever. Acredito que isso acendeu em mim a centelha da ambição. Se nunca aprendesse a ler e escrever, provavelmente não almejaria algo tão grandioso em meu futuro.
   Foi durante a minha décima oitava primavera que tive a oportunidade de finalmente partir. Me despedi de meus pais e segui rumo a cidade. Pretendia trabalhar de ajudante para um padeiro amigo de meu pai. Ao partir, minha mãe me lembrou de seus sábios ensinamentos. Afirmou que enquanto eu sonhasse e acreditasse em mim conseguiria ir longe. Se usasse as palavras ao meu favor poderia alcançar o que ninguém jamais alcançou. Eu sorri para ela e disse que entendia o que quis me dizer.  Então pude partir em rumo a meus sonhos.
   Quando cheguei a cidade logo me surpreendi com a amplitude das coisas. As casas eram maiores. Os nobres mais ricos. As vestimentas mais elegantes. Até as moçar pareciam mais viçosas e belas como as flores da primavera. Eu sentia que ali se iniciava o primeiro de meus muitos passos. Acordava cedo para ajudar a assar os pães, a tarde visitava o centro da cidade em busca de algum entretenimento e aprendizado. Com o tempo subi de cargo dentro da padaria e ao fim de três anos, com a morte do padeiro, havia herdado seu estabelecimento.
   Tratei de usar o que havia aprendido com meus anos de experiência junto de meu velho, e agora falecido amigo. Coloquei em pratica o que consegui aprender e aumentei os lucros do estabelecimento. Ao fim de dois anos era rico como um burguês. Dono de vários pequenos negócios.
   Nisso, minha vida mudou. Passei a trajar vestes elaboradas, buscar os melhores lugares e cortejar as mais belas e ricas damas. Já não compartilhava o baixo balcão nos teatros. Apesar de estar muito longe dos camarotes, já não fazia parte da ralé. Foi quando veio o meu fim.
   Fazia muitos anos que não visitava nem tinha notícia de meus pais. Resolvi então que ao fim do mês iria viajar para minha antiga aldeia e assim passar o verão junto deles. Estava para desposar uma bela e rica jovem e queria a benção de minha mãe. Também acreditava poder trazê-los para viver junto de mim na cidade, para que pudessem aproveitar um pouco da vida prospera que nunca haviam usufruído.
   Grande foi minha surpresa quando ao chegar em nossa antiga fazenda me deparei com uma velha senhora. Ela me contou que fazia um ano desde que meus pais haviam falecido e que ela tomara o lugar para si. Visivelmente abalado, fui convidado para entrar. Ouvi sobre como uma doença havia atacado toda a aldeia, e meus pais já idosos acabaram por sucumbir. Foi quando notei a mais bela jovem, neta da senhora, dona de uma beleza sem igual. Nesse instante meus planos mudaram. Não iria mais passar o verão com meus pais mas sim cortejando aquela linda moça.
   Tenho que admitir que minhas intenções não eram nobres. Apesar de encantado com a neta da senhora, não pretendia assumir casamento. Já tinha minha noiva rica na cidade. Subir na vida era tudo que almejava nestes tempos. Gastei meus dias a fio e quando notei já era quase inverno e eu nada havia arranjado com a pobre moça.
   Foi quando a velha me fez uma proposta. Se prometesse fazê-la uma nobre senhora, ela me ofereceria a mão de sua neta. Claro que no momento aceitei. Apertamos as mãos em contrato e pude enfim usufruir do corpo da jovem e me deleitar em sua beleza. Ao final da semana parti com a promessa de voltar dentro de uma quinzena para finalmente despojar da neta e trazer para a cidade a velha senhora.
   Claro que menti. Quando cheguei a cidade continuei com a minha vida. Quando se passou dois anos as coisas começaram a ruir. Eu que naquele tempo já tinha um cargo no governo da cidade, me vi despejado do mesmo sem nenhuma razão. Perdido o meu posto, vi logo após meus negócios irem a ruína. Minha bela esposa faleceu ao dar à luz a nosso primeiro bebê, bebê este que nasceu aleijado e veio a morrer antes de completar três meses de vida. Já na rua da amargura, sem ter para onde ir, resolvi voltar a fazenda de meus pais. Havia me esquecido de promessas antigas e acreditava que os moradores da casa já deviam há muito ter debandado. Planejava ao chegar reclamar o terreno no meu direito de herdeiro
   Quando cheguei na casa pude ver que muito havia mudado. Grande parte da estrutura havia se tornado ruína e as plantas ao redor agora eram podres e mortas. Fungos cresciam nos troncos de velhas árvores. Insetos e vermes pareciam se esbaldar num cadáver de um velho animal a muito morto por ali. O susto foi imediato. Retomei a postura e resolvi verificar se havia algum morador presente neste sombrio e fúnebre local.
   Ao abrir a porta me deparei com uma velha decrepita, semelhante a uma bruxa, que me recebeu com um sorriso. Me pediu desculpas e convidou a entrar. Me ofereceu agua e pão. Disse estar muito triste pelo estado da casa. Contei a minha história, e por mais que ela dissesse que sentia muito por mim não perdia a estranha sensação de que ela se regozijava com tudo dito. Exausto então pela viajem e pelas surpresas, concordei em dormir no velho catre do antigo quarto de meus pais. Não tinha outro lugar para ir.
   Na manhã seguinte me encontrei enjoado. Me sentia zonzo e doente. Passei o resto do dia e da semana deitado no quarto. Tinha vários sonhos macabros e visões fantasmagóricas durante todo momento. Delírios sempre me acometiam quando tentava caminhar pelo quintal. Sempre parecia encontrar com novos corpos de animais mutilados no jardim. Via abutres pendurados naquelas árvores retorcidas. Todos os dias eram nublados e chuvosos. Quando melhorei um pouco vi que um mês havia se passado e resolvi que era hora de partir daquele lugar que tanto mal me fazia. Levantei silenciosamente quando o sol ainda estava planejando nascer. Quando ia cruzar a porta, a decrepita bruxa apareceu. Agora seu sorriso era grotesco e nítido. Enquanto meu rosto demostrava todo o pavor que sentia ao me ver flagrado, ela me jogou dentro do porão. Encontrei então com uma criatura anoréxica. O chão ao seu redor era cercado de ossos.
   No escuro daquele cômodo ouvi com horror o que a velha me contava. A bruxa nada mais era que sua bela neta consumida pelo ódio. Desde que muito eu partira, a velha descobrira que a neta era praticante de artes negras e ocultas. Cega pala raiva, a jovem resolveu se vingar da avó acusando-a de tentar vendê-la por riqueza. Nove meses se passaram e a bruxa conseguiu o que faltava para completar sua maldição. O que ela necessitava era de meu nome e um pouco de meu sangue, o que conseguiu matando a criança carregada em seu ventre durante todo o tempo em que planejava sua vingança. Sempre quieta e paciente. Passou então a viver de bruxarias por encomenda. Sacrificava animais e crianças, bebia sangue e cantava versos satânicos. Enquanto a velha esquelética contava toda sua história, a bruxa chorava de rir nos andares superiores. 

   Ao final percebi o meu erro. Por causa de falsas promessas e palavras toda a minha vida havia sucumbido. Agora eu era um escravo daquela bruxa malvada até os últimos dias de sua vida, ou então até meu fim. O que viesse primeiro.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Felino

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 09:17 0 comentários
   Pessoas sempre lhe pareceram estranhas. Eram criaturas deselegantes e barulhentas, sempre apressadas e desesperadas por alguma coisa. Nunca pareciam se importar com os outros seres que existiam no mundo. Tão centradas em si mesmas. Tão hipócritas e tão mesquinhas. Destruindo o mundo sem se importar com o futuro. Vivendo em uma sociedade que mais parecia uma prisão. Prisão essa que construíram ao redor de si mesmas como se não quisessem um dia encontrar a felicidade.
    Mas havia uma pessoa que lhe parecia diferente. Ela sempre lhe dava afeto e carinho, sempre com algum mimo, algum cuidado. Sempre existindo pelos outros. Existia também por ele. Quando as coisas estavam difíceis era a hora de ele entrar em ação. Retribuía todo o amor que recebia dela. Chegava de mansinho, se aconchegava em seu colo, tentava fazê-la entender que quando menos esperasse as coisas iriam mudar. E iriam mudar para melhor. Havia justiça no mundo para as boas criaturas, e ela era o exemplo máximo de algo bom.
   De vez em quando ele lhe dava algum presente. O que conseguia caçar. Uma lagartixa, um rato. Apesar de não ser muito do feitio dela, ele tentava. Afinal o que um pobre gato tinha para oferecer a sua dona? Ela que sempre o alimentava, afagava e protegia de todo o mal que existia lá fora. De todos aqueles humanos maus e mesquinhos. Humanos que maltratavam não só os animais, mas a seus semelhantes também. Machucavam e feriam seus iguais por mesquinharias. Matavam por pedaços de papel.
  Nesse dia ela chegou do emprego cansada como sempre. Deixou a bolsa no canto do quarto, largou os sapatos pelo chão e suspirou exausta. Ela se esqueceu de lavar os cabelos, de trocar de roupa, mas lembrou de colocar o jantar do pobre gato no pote. Lembrou-se de trocar a água dele por uma fresquinha, logo antes de pular na cama ainda de uniforme, para finalmente descansar.

   Mal ela encostou no travesseiro, dormiu. Então ele fez o que mais era de seu agrado. Deitou ao seu lado e a assistiu dormir. Tentou passar todo o amor que ela, mais do que ninguém no mundo, merecia. Afinal, pelo menos isso um gato podia oferecer. Podia estar lá quando ela acordasse. Esperava que um dia o mundo vivesse sob a lei dos gatos. Lei essa que faria do mundo, finalmente um lugar feliz. 

quinta-feira, 5 de março de 2015

A Rua Limoeiros

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 05:25 1 comentários
   Olhando bem a Rua dos Limoeiros não era bem o que aparentava. Embora fosse uma rua em um bairro tradicional da cidade de Montanhosa, era repleta de velhas casas abandonadas. Mas apesar de parecer sombria a imagem de um local com casas velhas e decrépitas, não havia nada de assustador na Limoeiros. Ou era pelo menos a impressão que passava. Tinha várias árvores, calçadas conservadas, poucas residências. Não parecia um lugar desagradável.
   Carlos Henrique, bom morador de Montanhosa, rapaz digno e trabalhador, estava seguindo sua rota normal pelo bairro São Joaquim, o fatídico local que abrigava a Rua dos Limoeiros. Era agente sanitário da cidade. O trabalho do dia consistia em visitar casas para o combate a dengue. A rua retratada nesta história era abrigada de muitos prováveis focos da doença. Casas velhas e locais abandonados eram cheios de locais para abrigar água parada da chuva, e consequentemente abrigar as larvas do temível mosquito.
   Apesar de ser obvio que a rua em questão fosse um local necessário de se visitar, nunca tinham destacado alguém para fazer a rota pela tal rua. Carlos seguiu seu caminho pelo bairro em direção a Limoeiros. Não precisaria de licença para invadir as casas, só precisava entrar nas devidas moradias e acabar com os focos da doença. Trabalho rápido devido às dimensões da localidade.
   As coisas ficaram meio estranhas no momento em que ele cruzou a esquina que dava acesso a Limoeiros. Quando ele botou os pés no primeiro centímetro da calçada, uma brisa fria o atingiu, apesar de ser janeiro. Sentiu um arrepio em seus braços e a leve sensação de que algo o seguia. As muitas folhas que existiam pelas calçadas eram sopradas pelo vento lançando um barulho aterrador enquanto ele caminhava rua adentro. Ele sentiu um medo incontestável. Embora a rua fosse abandonada, tinha a sensação de estar com mais alguém ali.
   O medo levou Carlos a desistir de fazer essa parte da rota. Não aguentaria nem mais um minuto naquele lugar. Quando se virou para redobrar a esquina e se ver livre de tal rua aterradora teve um choque. Os poucos metros que havia andando rua adentro, agora pareciam quilômetros sem fim. Enquanto mais andava para sair de seu aprisionamento, mais parecia que havia caminho a percorrer.

   O desespero foi à primeira coisa que o atingiu. A segunda foi à certeza de que iria morrer sem nunca mais sair dali. Das sombras ouviu o primeiro passo e com ele veio o seu fim.

quarta-feira, 4 de março de 2015

João

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 05:49 0 comentários
   Nem sempre as coisas foram fáceis para João. Na sua casa seus pais viviam brigando e sempre que ia a escola ficava encabulado perante novos amigos. Com sua timidez acabou distanciando os outros e se tornou um bocado sozinho. Quando ingressou na quarta série conheceu André e foi amizade à primeira vista.
   André era o típico menino gente boa. Falava com todos, tinha boas notas, muitos amigos, boas maneiras, mas o que André mais amava eram os livros. Ele adorava ler romances de suspense e aventura. Divertia-se com Julio Verne, se assombrava com Stephen King. Para ele mais mágico que os livros eram os escritores. Foi isso que ele viu em João.Um menino que era quieto, mas que por algum motivo adorava escrever. João escrevia para escapar da solidão, esquecer-se dos problemas em casa, rir quando estava um pouco triste. Se alguém ria dele na escola, João contava a história de um menino que ria dos outros e foi engolido por um buraco negro. Se seus pais discutiam e o mandavam para o quarto, pimba! Surgia um conto de pais que foram levados para marte por alienígenas. Apesar de ser um escritor vingativo nas horas vagas, João amava mesmo escrever. E ele era muito bom nisso.
   A amizade entre os dois surgiu de uma maneira simplória. André viu um menino lendo’ Volta ao mundo em 80’ dias e logo pensou “alguém que goste de ler, vou lá conversar!”. Quando se aproximou de João, viu que ele apesar de tímido gostava muito de livros, e também de aventuras, e de contar histórias. A conversa entre os dois fluiu, e a amizade surgiu quase que num passe de mágica. Passaram a sair juntos, ir às bancas de jornal após a escola comprar quadrinhos, recomendar livros e séries entre si e depois discuti-las juntos. A vida então passou não a ser mais fácil, mas ao menos ser mais divertida para João. Se as coisas ficavam pesadas ele agora tinha alguém com quem conversar.
  O grande problema veio quando os meninos mais velhos começaram a judiar de João. Para os outros meninos era incompreensível um garoto além de gostar de ler, ficar dizendo asneira como “vou ser um escritor” quando lhe perguntavam sobre o futuro. Impossível um Zé ninguém, magricela e esquisito, de uma escola de fim de mundo ser algum dia um escritor importante. João não se importava, mas André sim. Por seu amigo ser um cara até bem popular, João não era alvejado o tempo todo. As coisas consistiam mais em encontrões e bilhetinhos sem graça lançados na mochila dele. André perguntava quem tinha feito isso, João dizia “deixa para lá”.
   Mas um dia tudo mudou. Um idiota do time de futebol havia como sempre empurrado ele na escola, sua mochila se abriu, livros caíram. As coisas não teriam passado disso se o moleque não tivesse pegado seu livro favorito e pisado nele. Um livro pisado era coisa mais dolorosa d o mundo. Era o bastante para qualquer amante da literatura se revoltar. Ele então fez o que jamais tinha feito. Reagiu. Ele empurrou o menino de volta. O que rendeu a ele um soco na cara e o seu livro ficar todo rasgado e sujo na lata de lixo.
   Depois que tudo passou ele foi remexer no lixo. André chegou logo nesse momento. Viu a figura do amigo sangrando machucado e debruçado sobre o lixo. Seus pertences todos esparramados pelo chão. A cena foi de cortar o coração de André. Mas o que mais o incomodou foi o sorriso de dentes quebrados que João fez quando o viu. Doeu muito ver a alegria do outro menino quando ele chegou e o ajudou a guardar tudo que estava pelo chão. Esse sorriso nunca saiu da sua cabeça.
  Hoje em dia João escreve livros. Seu último se tornou um Best Seller. André vai sempre às reuniões de família, feiras literárias. Seus filhos são amigos. O tesouro mais importante da estante de João é o exemplar de ‘Volta ao mundo em 80 dias’ que André lhe deu quando o seu foi destroçado pelo artilheiro do time da escola. Mal ele sabia ao dar o presente a João, que o livro só era o seu preferido porque tinha feito a amizade entre os dois surgir.

   Quando as pessoas entrevistam João, ele diz que o momento mais importante da vida dele, o que o definiu como escritor, foi o dia em que ele, mesmo com os dentes quebrados e sujos de sangue, conseguiu sorrir. Porque nesse dia ele teve a certeza de que não só alcançaria os seus sonhos e faria todos pagarem por terem duvidado dele, como também viu que sempre alguém estaria lá para ajudá-lo. E esse alguém sempre seria o seu amigo, André. 

terça-feira, 3 de março de 2015

Os Três Homenzinhos na Floresta

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 09:15 0 comentários
Irmãos Grimm

Havia um homem cuja mulher morrera, e uma mulher cujo marido morrera; e o homem tinha uma filha, e a mulher tinha uma filha também.


As meninas vieram a se conhecer, foram passear juntas e, mais tarde, chegaram à casa da mulher. Esta disse, então, à filha do homem:

- Escuta, dize a teu pai que eu gostaria de me casar com ele; terás, todas as manhãs, leite para te lavares e vinho para beber; minha filha porém, terá água para se lavar e água para beber.

A menina foi para casa e contou a seu pai o que a mulher havia dito.

- Que devo fazer? – disse o homem. – O casamento é uma alegria mas é, também um tormento.

Por fim, como não conseguisse tomar decisão alguma, descalçou sua bota e disse à filha:

- Pega esta bota, que tem um furo na sola, leva-a ao sótão, pendura-a no prego grande e despeja-lhe água dentro. Se ela contiver a água, decido que tomo de novo uma esposa, mas se a água escorrer, decido que não.

A menina fez como lhe fora ordenado, mas a água retraiu o furo, e a bota ficou cheia até a borda. Ela comunicou o resultado ao pai, e ele, então, subiu pessoalmente. Quando viu que a filha tinha razão, foi ter com a viúva, pediu-lhe a mão, e o casamento se realizou.

Na manhã seguinte, quando as duas meninas se levantaram, a filha do homem encontrou leite para se lavar e vinho para beber; para a filha da mulher, porém, havia água para se lavar e água para beber. Na segunda manhã, tanto a filha do homem como a filha da mulher encontraram água para se lavarem e água para beber. E, na terceira manhã, a filha do homem tinha água para se lavar e água para beber, e a filha da mulher tinha leite para se lavar e vinho para beber. E assim continuou dali por diante.

A mulher tomou ódio da enteada e, de dia para dia, não sabia mais o que fazer de pior para ela. Além disso, tinha-lhe inveja, pois a enteada era bela e graciosa, enquanto sua própria filha era feia e repugnante.

Certa vez, no inverno, quando tudo se congelara espessamente e a montanha e o vale jaziam cobertos de neve, a mulher fez um vestido de papel, chamou a menina e disse:

- Toma este vestido, veste-o e vai à floresta colher para mim um cestinho cheio de morangos. Estou ansiosa para comê-los.

- Meu bom Deus, – disse a menina – no inverno não crescem morangos, a terra está congelada, e a neve cobriu tudo! E por que devo ir com este vestido de papel? Lá fora está tão frio que chega a gelar o hálito. O vento passará através do vestido, e os espinhos o arrancarão do meu corpo.

- Ousas contradizer-me? – retrucou a madrasta. – Trata de ir e não me apareças antes de teres o cestinho cheio de morangos.

Deu-lhe ainda um pedacinho de pão duro e disse:

- Com isto, terás o que comer durante o dia.

E pensou: "Lá fora, acabará enregelando-se e morrendo de fome, e nunca mais aparecerá diante dos meus olhos."

A menina, então, obedeceu, pôs o vestido de papel e saiu com o cestinho. Por toda parte, não havia outra coisa a não ser neve, e não se enxergava um só talinho verde. Chegando à floresta, ela viu uma casinha onde três homenzinhos espiavam pela janela. Ela desejou-lhes bom-dia e bateu discretamente a porta. Eles chamaram-na para dentro, e ela entrou na salinha e sentou-se num banco junto ao fogão; queria aquecer-se e comer sua refeição. Os homenzinhos disseram:

- Dá-nos também um pouquinho!

- Com todo o prazer – respondeu ela, e partiu em dois seu pedacinho de pão, dando-lhes a metade.

Eles perguntaram:

- Que queres aqui na floresta, em pleno inverno, com esse vestidinho tão fino?

- Ah, – respondeu ela – preciso procurar morangos para encher este cestinho, e não posso voltar para casa sem levá-los comigo.

Tendo ela acabado de comer seu pão, eles deram-lhe uma vassoura, dizendo:

- Tira com ela a neve da porta dos fundos.

Enquanto ela estava lá fora, os homenzinhos puseram-se a conversar entre si:

- Que lhe devemos dar de presente por ser tão gentil e bondosa, e por ter repartido seu pão conosco?

Então, o primeiro disse:

- O meu presente é que ela se torne cada dia mais bela.

E disse o segundo:

- O meu presente é que lhe caia da boca uma moeda de ouro, sempre que pronunciar uma palavra.

E o terceiro disse:

- O meu presente é que venha um rei e a tome por esposa.

A menina fez como os homenzinhos lhe haviam mandado, tirou com a vassoura a neve que havia atrás da casa, e o que pensais que ela encontrou? Uma grande quantidade de morangos maduros, bem encarnados, que surgiam por entre a neve. Cheia de alegria, apressou-se em apanhá-los e encher seu cestinho, agradeceu aos homenzinhos, apertando a mão de cada um, e correu para casa, pois queria levar à madrasta o que ela lhe exigira. Quando entrou e disse "Boa-noite!," imediatamente caiu de sua boca uma moeda de ouro. Contou, então, o que lhe havia sucedido na floresta e, a cada palavra que pronunciava, caíam-lhe da boca moedas de ouro, de modo que logo toda a sala se cobria delas.

- Olha só que leviandade – exclamou a filha da madrasta – jogar dinheiro dessa maneira!

No intimo, porém, estava com inveja da irmã e também queria ir até a floresta procurar morangos e falou de sua intenção à mãe, que disse à filha:

- Não, minha querida filhinha, está frio demais e poderias ficar enregelada.

Como, no entanto, ela não lhe desse mais sossego, acabou consentindo. Fez-lhe um magnífico casaco de pele, que ela vestiu, e deu-lhe pão com manteiga e bolo para comer no caminho.

A menina entrou na floresta e foi direto à pequena casinha. Os três homenzinhos lá estavam de novo espiando pela janela; ela, porém, não os cumprimentou e, sem ao menos voltar o olhar para eles, entrou pela sala adentro, sentou-se ao fogão e começou a comer seu pão com manteiga e seu bolo.

- Dá-nos também um pouquinho! – exclamaram os homenzinhos.

Ela, porém, respondeu:

- Mal chega para mim, como posso dar aos outros?

Quando acabou de comer, disseram eles:

- Aqui tens uma vassoura. Vai lá fora, varre com ela diante da porta dos fundos e deixa tudo limpo.

- Ora, varrei vós mesmos! – respondeu ela – Eu não sou vossa criada.

E, vendo que eles não lhe queriam dar nada de presente, saiu pela porta afora.

- Que lhe devemos dar por ser tão descortês e malcriada, e por ter um coração mal e invejoso, e por não repartir nada com ninguém? Eles se perguntaram.

Disse o primeiro:

- O meu presente é que ela se torne cada dia mais feia.

E disse o segundo:

-O meu presente é que lhe salte da boca um sapo, a cada palavra que pronunciar.

E disse o terceiro:

- O meu presente é que morra de morte horrível.

Lá fora, a menina procurou morangos. Como não achou nenhum, foi para casa aborrecida. E, quando abriu a boca, querendo contar à mãe o que lhe sucedera na floresta, a cada palavra que proferia, saltava-lhe da boca um sapo, de modo que todos tomaram aversão por ela.

A madrasta, então, zangou-se mais ainda e só pensava na maneira de causar todo tipo de sofrimento à enteada, cuja beleza aumentava de dia para dia. Por fim, pegou um caldeirão, pôs no fogo e ferveu fios dentro dele. Depois de fervidos, pendurou-os nos ombros da pobre menina e lhe deu um machado, mandando-lhe que fosse até o rio congelado, fizesse um buraco no gelo e enxaguasse os fios.

Obedientemente, ela foi até lá e se pôs a dar machadadas no gelo para abrir um buraco; ainda estava ocupada nisso, quando apareceu uma suntuosa carruagem, dentro da qual estava um jovem rei. A carruagem se deteve, e o rei perguntou:

- Minha pequena, quem és tu e que fazes aí?

- Sou uma pobre menina e enxaguo fios.

Então, o rei teve pena e, vendo que ela era tão bela, disse:

- Queres vir comigo?

- Oh, sim, de todo o coração – respondeu ela, contente de poder ficar longe das vistas da mãe e da irmã.

Assim, subiu na carruagem e foi embora com o rei. Quando chegaram ao castelo, o casamento foi festejado com grande esplendor, pois o jovem já estava apaixonado pela aquela bela moça, conforme os homenzinhos lhe haviam desejado.

Passado um ano, a jovem rainha teve um filho. A madrasta, ouvindo falar de sua grande felicidade, foi com sua filha ao castelo, sob o pretexto de fazer uma visita. Mas como, em dado momento, o rei se ausentou e não havia mais ninguém por perto, a malvada mulher agarrou a rainha pela cabeça, e sua filha agarrou-a pelos pés, tiraram-na da cama e jogaram-na pela janela, na correnteza do rio que por ali passava. Em seguida, a filha feia deitou-se na cama, e a velha cobriu-a até a cabeça. Quando rei voltou e quis falar com sua mulher, a velha disse:

- Psiu... silêncio! Agora não é possível. A rainha está suando muito. Hoje deveis deixá-la repousar.

O rei não viu maldade nisso e voltou na manhã seguinte. Quando falou com sua mulher, a cada resposta que ela lhe dava, saltava-lhe um sapo da boca, quando antes caía uma moeda de ouro. Então, ele perguntou o que era aquilo, mas a velha respondeu que era conseqüência do forte suadouro e que logo passaria.

À noite, porém, o ajudante de cozinha viu uma pata que, nadando pela sarjeta, chegou e disse:

- Ó rei, que fazes aí?

Estás a velar ou estás a dormir?

E, como ele não lhe desse resposta alguma, ela perguntou:

- E como estão minhas visitas?

Então o ajudante de cozinha respondeu:

- Profundamente adormecidas.

E ela continuou:

- Que está fazendo o meu filhinho?

E ele respondeu:

- Está dormindo em seu bercinho.

Então, retomando o aspecto de rainha, ela subiu, amamentou o filhinho, ajeitou-lhe a caminha, cobriu-o bem e, retomando a forma de uma pata, foi-se embora de novo, nadando pela sarjeta. Assim, ela veio por duas noites. Na terceira, disse ao ajudante de cozinha:

-Vai, e dize ao rei para apanhar sua espada e, na soleira da porta, brandi-la três vezes sobre mim.

O ajudante de cozinha correu a falar com o rei, que veio com a espada e a brandiu três vezes sobre o espírito; na terceira vez, estava diante dele a sua esposa, radiante, cheia de vida e saúde como antes.

O rei sentiu grande alegria, mas conservou a rainha escondida num aposento até o domingo seguinte, quando a criança deveria ser batizada. Terminada a cerimônia, ele perguntou à mulher:

- Que merece uma pessoa que arranca outra da cama e a atira ao rio?

- Nada melhor – respondeu a velha – do que meter a malvada num barril crivado de pregos e rodá-lo montanha abaixo para dentro d'água.

O rei, então, disse:

- Proferiste tua própria sentença.

E mandou buscar um barril assim, e mandou meter dentro dele a velha com sua filha; e o fundo do barril foi pregado, e o barril foi posto a rolar montanha abaixo, até que rodou para dentro do rio.
 

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