quarta-feira, 10 de junho de 2015

Bagunça

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 12:38
   Você tropeça pelos trapos de si mesma, largados no chão. Sua alegria embolada com umas peças de roupa suja, ao lado de uma montanha de problemas. Bem em sua frente você vê a pilha de louça suja se amontoando e junto dela sua tristeza, o ralo que está entupido trasborda e lá está você enxugando aquela bagunça toda. A tristeza transbordando pelo chão se mistura com suas lágrimas.
   Você pega o pano de chão, seca aquilo tudo e espreme no balde. No caminho que droga! Você tropeça na agonia, lá vai aquela bagunça toda se esparramar novamente. Tudo isso dá uma canseira e você senta no canto do quarto junto de seu colchão. Ele está estufado com as noites mal dormidas, com a insônia e os pesadelos intermináveis. Acabou por não sobrar espaço para você e restou somente sentar no chão. O seu travesseiro está encharcado de suor. Aquelas lágrimas benditas que estão esparramadas lá pelo chão, também estão misturadas com o travesseiro. E você está destruída, e quem te vê acha você muito abatida. Seu sorriso amarelo não consegue disfarçar muita coisa, e as pessoas fingem se deixar enganar. É para não ficar feio. Já que você se esforça tanto para encenar essa mentira, é melhor fingir que acreditou.
   Não dá para ficar no quarto, nem dá para ficar na cozinha, a sala esta intransitável com aquelas pilhas todas e a sacada é só poeira e poluição. Mas você ainda tem aquele canto no armário. Pode se embolar com as peças de roupa que herdou da sua mãe. Elas ainda têm o cheiro de alento e de infância. Trancada dentro do armário você não precisa ver passar o tempo. Você pode fantasiar que ainda é dia, que a hora não passou e que quando sair ainda vai dar para terminar aquelas tarefas e depois concertar sua vida.
   Acontece que ela estagnou. Vivendo você virou em uma esquina com o destino, entrou num beco sem saída e quando notou, não conseguia mais voltar. Você virou e deu de cara com um monte de paredes, desde então você gasta a energia tentando sair daquela gaiola. Além da energia você também gastou suas unhas, que ficaram em carne viva por tentar escalar os muros altos, seus braços estão roxos e duros de tanto dar socos na vã esperança de derrubar as paredes. Até a cabeça você bateu sem resultado. Suas roupas ficaram puídas quando você juntou pedaço por pedaço para lançar uma corda e quem sabe sair dali? Mas não adiantou, e nada na sua vida tem adiantado.
   Eu sinto muito, não vai ser agora que vai ver o fim. Ainda tem muito trabalho a fazer. Mas eu não vou te obrigar sair desse seu lugar seguro, dentro do armário, abraçada nos suéteres da sua mãe. Pode ficar mais um pouco, e pode ficar o quanto precisar. Mas eu preciso ser sincera com você, um dia você vai ter que sair. Vai precisar limpar a bagunça, arrumar a casa, abrir as janelas e arejar o quarto. Vai precisar enfrentar seus medos e juntar toda a coragem do mundo. Você acha que não tem, mas ela está escondida por aí. Você é brava, valente, forte. Olha essa merda toda que aguentou até agora. Quem fala é a sua consciência. Eu não vou deixar você desistir tão fácil assim.

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