sexta-feira, 1 de julho de 2016

Amargurar

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 09:15 0 comentários
Eu não sei como me suportas
Ranzinza, bronca, chata.
Se te peço uma rosa,
E tu me trazes um buquê,
Eu cuspo e jogo de volta.
E pode parecer torto meu amor
Mas no fundo,
Eu só estou lhe testando.
Quero ver o quanto tu aguentas.


No fim
Quando tu fores embora
Vou cair em prantos
Cerrar meus olhos
Desejarei não mais acordar.
Quando tu partires, amor
Vou me arrepender de cada gesto
Vou procurar aquele velho buquê,
Perdido entre as latas de lixo,
O abraçarei mesmo em pedaços
Cheirarei cada uma
De suas pétalas mortas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Poema

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 06:57 0 comentários

Nós todos somos criaturas ansiando por atenção
Gritamos sozinhas no escuro aguardando alguém nos ouvir
Esperando uma voz que responda:
- Eu estou aqui.
Nós somos todos filhos da dor e dor medo
Rezando baixo, clamando por amor
Esperando que Deus nos diga:
- Não se assuste, estou aqui.

Nós somos todos escravos da esperança
Mesmo sofrendo jamais deixamos de acreditar que algo melhor está por vir
Chorando alto pedimos clemência
Dói demais estar aqui.
Eu sou vazia e insegura
Choro sempre, mas nunca deixo uma gota cair
Perdida no escuro me sentindo estranha

Queria , muito que alguém me notasse aqui.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Perfume

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 07:07 1 comentários
   Cheirei o travesseiro e senti o seu cheiro. Tratei logo de ligar o ventilador e colocar o colchão na varanda. Fiz uma mandinga e coloquei a manta na máquina de lavar. Eu fiz de tudo para te afastar amor. Verdade seja dita, eu não te quero mais. Coisa ruim traz negatividade e você já empestou demais o ar por aqui.
   Eu fui à cozinha preparar um café amargo, que é pra tirar o seu gosto da boca. Depois tomei um banho quente e demorado. Esfreguei a carne até ficar vermelha. Não quero marca nenhuma dos seus dedos em mim. Eu estava séria quando pedi para sair e desculpa se fui meio brusca, mal educada. Sei que não tinha o direto de jogar suas coisas pela janela e queimar o seu computador. Mas vejo as coisas deste lado, o lado que cansou de ser mal amada e iludida acreditando que tudo chegaria ao fim.
   Pensando bem, eu mudei. Fiquei mais forte e amarga, a simples lembrança sua é algo que não consigo suportar. Para te apagar queimei todas suas cartas e fotos. Desinfetei os quartos, a cozinha, a sala com água sanitária e defumador. Se pudesse até sumia com você do mundo. Te apagaria sem problema algum. Você desapareceria dos registros funerários, das noticias e dos jornais. Por mim você nunca teria existido. Tudo para não cruzar com você por aqui.
   Pra não falar que não avisei, toma cuidado. Você sabe os horários em que vou para academia, sabe onde eu como e quando durmo. Sabe bem a placa do meu carro, eu iria detestar te atropelar por aí. Ter que limpar os seus pedaços do para-choque daria muito trabalho, coisa que você nunca mereceu vindo de mim. Podia sim ter uma morte maldita, digna dos filmes péssimos de terror que me obrigava a assistir. Por mim você não merece nada. Era só isso que queria te contar, só para o caso de precisar saber.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Bagunça

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 12:38 0 comentários
   Você tropeça pelos trapos de si mesma, largados no chão. Sua alegria embolada com umas peças de roupa suja, ao lado de uma montanha de problemas. Bem em sua frente você vê a pilha de louça suja se amontoando e junto dela sua tristeza, o ralo que está entupido trasborda e lá está você enxugando aquela bagunça toda. A tristeza transbordando pelo chão se mistura com suas lágrimas.
   Você pega o pano de chão, seca aquilo tudo e espreme no balde. No caminho que droga! Você tropeça na agonia, lá vai aquela bagunça toda se esparramar novamente. Tudo isso dá uma canseira e você senta no canto do quarto junto de seu colchão. Ele está estufado com as noites mal dormidas, com a insônia e os pesadelos intermináveis. Acabou por não sobrar espaço para você e restou somente sentar no chão. O seu travesseiro está encharcado de suor. Aquelas lágrimas benditas que estão esparramadas lá pelo chão, também estão misturadas com o travesseiro. E você está destruída, e quem te vê acha você muito abatida. Seu sorriso amarelo não consegue disfarçar muita coisa, e as pessoas fingem se deixar enganar. É para não ficar feio. Já que você se esforça tanto para encenar essa mentira, é melhor fingir que acreditou.
   Não dá para ficar no quarto, nem dá para ficar na cozinha, a sala esta intransitável com aquelas pilhas todas e a sacada é só poeira e poluição. Mas você ainda tem aquele canto no armário. Pode se embolar com as peças de roupa que herdou da sua mãe. Elas ainda têm o cheiro de alento e de infância. Trancada dentro do armário você não precisa ver passar o tempo. Você pode fantasiar que ainda é dia, que a hora não passou e que quando sair ainda vai dar para terminar aquelas tarefas e depois concertar sua vida.
   Acontece que ela estagnou. Vivendo você virou em uma esquina com o destino, entrou num beco sem saída e quando notou, não conseguia mais voltar. Você virou e deu de cara com um monte de paredes, desde então você gasta a energia tentando sair daquela gaiola. Além da energia você também gastou suas unhas, que ficaram em carne viva por tentar escalar os muros altos, seus braços estão roxos e duros de tanto dar socos na vã esperança de derrubar as paredes. Até a cabeça você bateu sem resultado. Suas roupas ficaram puídas quando você juntou pedaço por pedaço para lançar uma corda e quem sabe sair dali? Mas não adiantou, e nada na sua vida tem adiantado.
   Eu sinto muito, não vai ser agora que vai ver o fim. Ainda tem muito trabalho a fazer. Mas eu não vou te obrigar sair desse seu lugar seguro, dentro do armário, abraçada nos suéteres da sua mãe. Pode ficar mais um pouco, e pode ficar o quanto precisar. Mas eu preciso ser sincera com você, um dia você vai ter que sair. Vai precisar limpar a bagunça, arrumar a casa, abrir as janelas e arejar o quarto. Vai precisar enfrentar seus medos e juntar toda a coragem do mundo. Você acha que não tem, mas ela está escondida por aí. Você é brava, valente, forte. Olha essa merda toda que aguentou até agora. Quem fala é a sua consciência. Eu não vou deixar você desistir tão fácil assim.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Reencontro

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 13:19 0 comentários
   Dois anos passados desde que a moça sumira. O motivo era bem conhecido por Andrei. Ela deixara tudo muito claro na última visita, quando conversaram, namoraram e riram juntos na cama até tarde. No meio da madrugada ele acordou e tudo que encontrou foi uma carta e uma pulseira largada no tapete. A pulseira com a qual a presenteara no aniversário. Eu nunca quis julgar ninguém, mas neste caso me venho obrigado a falar que faltou garra e coragem ao nosso herói. Era muito claro para quem estivesse ao redor que ela era uma moça problemática, triste, precipitada, assustadiça, o tipo de pessoa que se assemelha a uma bomba relógio. Apesar de o tempo que tiverem de amizade e que passaram juntos ter amansado aquele coração vazio, era claro que ela partiria no primeiro momento que visse sua presença escurecer o futuro. Ela se via como um estorvo para Andrei. Na posição de nosso herói, eu não sei o que faria, mas essa não é minha posição nesta história e saber o que fazer é a obrigação dele. Foi com espanto que a encontrou sentada na cafeteria. Um passeio até a capital levou-o de volta a tirana que roubara seu coração. O que faltou no início veio de sobra no fim. Ele andou até a mesa dos fundos, pediu licença e sentou. Vamos agora observar a cena.
   O rapaz senta e olha para a moça de olhos marejados. Ela pensa em esticar a mãos e retrai em meio caminho. Ele então estica seus braços e alcança aquelas trêmulas mãos. Ela cora, sorri e começa a falar. As palavras saem como sussurros, embaçadas pelos soluços e lágrimas que teimam em cair. O rapaz levanta, com movimentos de extrema mestria, muda de local e senta ao lado da moça, tudo isso sem soltar sua mão. Ele abraça e tenta confortar aquela mulher que agora desaba como uma criança. E ele sussurra palavras ao pé do ouvido. Tudo que se consegue escutar da cena é um belo e delicado "obrigada" que escapa dos lábios daquela pobre moça. E seus lábios molhados agora são calados, com um beijo terno e profundo toda a cena chega ao fim.



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Café

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 05:08 0 comentários
   Foi com muita dúvida que Leonini entrou no café. Nunca andara por aquelas bandas, mas a sede era tanta que ele se viu obrigado a entrar no estabelecimento. Sentou em uma mesa de canto, notou como era um lugar duvidoso e se contentou com o fato de que não demoraria muito. Veio o garçom e ele pediu uma xícara de café. Enquanto esperava abriu o jornal que carregava e pôs-se a ler. Foi com surpresa que indagou ao garçom o que era aquilo quando o mesmo lhe entregou um envelope ao invés de uma xícara:
- Isso é exatamente o que o senhor pediu, uma xícara de café.
- Você por acaso acha que estou louco? Estou olhando nitidamente uma carta e não a porcaria de um café!
- Mas Senhor, é exatamente do que o senhor precisa, seu café.
   Levantou então aos xingamentos, carregando o envelope e esquecendo o jornal. Teria jogado fora se não contasse o seu sobrenome no remetente. “Ao Sr. Beloto” era o que dizia, em seu conteúdo apenas o endereço da próxima esquina. Foi com curiosidade que caminhou até a lá. Mal chegou, quando um camarada alto e careca, com uma baita japona preta lhe abordou. Perguntou se ele era o Sr. Beloto, ele acenou que sim. Recebeu de recompensa três tiros à queima roupa.
   Na cafeteria, o Ex.mo Marcontes, dono da boca, questionava o garçom o porquê do Sr. Beloto estar alegremente sentado em sua mesa, lendo o jornal e tomando café em vez de estar morto. O garçom temeroso respondeu que entregara a carta como exigido e que o vira seguir até o endereço.

   Sentado sem fazer a menor ideia de sua sorte, Tony Beloto apreciava o café e se punha a par das notícias do dia, sabia que seria corrido.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Adeus

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 10:58 0 comentários
   Respiro fundo e desço do carro. Há muito tinha ensaiado a coragem para ir visitar minha antiga rua. Eu sabia que ia ser difícil e um tanto complicado, todo aquele bairro carregava minha história. Foi naquela esquina que aprendi andar de bicicleta e está vendo aquele buraco mais à frente? Foi feito por mim. Eu e os meus amigos achamos uma boa ideia soltar um bombinha dentro de uma lata de concreto. Quando ela estourou a lata voou ao céu e caiu repleta de fúria. Destruí o gramado da dona Maria e fiquei de castigo uma semana. Hoje em dia não existe mais a casa e nem a dona Maria. O grama dela já partiu faz tempo, mas ainda tem o buraco. Acho que eles vão cobrir quando terminarem a fundação do prédio que estão construindo no antigo lote.
   Eu caminho pelas pedrinhas em direção à porta. Minha mãe achava bonito um jardim gramado com caminho de pedras. Sempre sonhou com isso. Quando casaram meu pai fez a tal trila, encheu a fachada de grama e plantou umas florezinhas. Era a trilha de tijolos amarelos dela. Vivia repetindo o lema, igual à personagem do seu filme preferido. Acho que o nome dela era Dorothy. Minha mãe fechava os olhos e dizia: “não há lugar melhor que o lar”. Agora não tem mais ninguém em casa. Vão derrubar na próxima semana. Adiei o quanto pude, mas aqui estou pronto para me despedir. O fato é que não é tão fácil dizer adeus a nossa infância. Vir aqui me dá pesar e alegria, muito sentimento junto e misturado. 
   Eu fui feliz o quanto podia. Corri pelas quadras, atormentei os vizinhos como qualquer moleque. Joguei bola, briguei e bati. Foi aqui que conheci a minha primeira namorada, o meu melhor amigo. Minha história contida em um quarteirão. Meu lar também sempre foi feliz. Mesmo trabalhando feito um burro, meu pai arrumava um tempo para ficar em casa. A gente jogava baralho, assistia a um filme e comia pipoca. Nunca vi uma pessoa amar tanto alguém como ele amava a minha mãe. Ela era a luz da nossa casa. Iluminava toda a família. Não importa quão ruim e miserável tinha sido seu dia, era só chegar em casa que ela espantava o desanimo e colocava a alegria no lugar. O sorriso dela curava tudo, e ela nos amava muito. 
   Nunca foi o plano dos meus pais vender a casa, mesmo com o novo complexo de imóveis surgindo. Mas aí veio o câncer e tudo mudou. Minha mãe morreu, sofreu muito e eu nunca vou entender qual foi o sentido disso. Por que uma pessoa tão boa e pura tinha que morrer justo de câncer? Ela não merecia, aliás, ninguém nunca mereceu. Meu pai não aguentava nem chegar mais perto da casa. Ele ficou um inferno. Ranzinza o tempo todo. Ninguém mais o aguenta lá em casa. Tive que vir fazer a mudança, assinar os contratos da venda do imóvel, resolver tudo sozinho e agora eu estou aqui. Vasculhando para ver se não ficou nada para trás. Dando até mais a minha infância. Despedindo-se de minha mãe. 
   Eu entro pela porta, subo as escadas e visito o meu antigo quarto. Ainda tem as marcas dos pôsteres que ganhava de brinde no fliperama. Tem também as marcas das figurinhas de jogadores de futebol que colecionava. Colava elas na parede rente a cama. Minha mãe ficava para morrer com isso. Visito o quarto dela. As paredes continuam no mesmo tom rosado. A tinta desbotou um pouco com o passar dos anos, mas mesmo assim continua intacto. Minha mãe tinha essa mania em manter a casa bonita. Ela dizia que a casa tinha que ser alegre, colorida, cheia de porta retratos, enfeites de galinha na cozinha é um monte imãs no quadro de recados.
   Eu desço as escadas, dou uma olhada rápida na cozinha, vejo se na sala está tudo bem. Saio pelos fundos, olho a garagem. Não tem mais nada lá. Volto para a sala e percebo algo estranho. Tinha alguma coisa ali no chão, perto da janela. Recolho e é um retrato meu e de minha mãe. Nós dois abraçados no gramado, ao fundo a trilha de tijolos dela, as flores do quintal e a grama do jardim. Ela sempre foi linda, nem a doença levou isso no final. 
   Eu não consigo mais segurar. Sento no chão, sozinho naquele lugar vazio. É a primeira vez que choro a morte da minha mãe. Eu não tive muito tempo para chorar, fiquei forte e lidei com tudo. Fiz esse favor para o meu pai, alguém tinha que cuidar das papeladas, da funerária, do caixão, do enterro e agora da casa. Respiro fundo e levanto. Seco os olhos na manga da camisa. Ajeito os ombros, bato a poeira da roupa e pego o retrato. Fecho a casa e vou para o jardim. Hora de ir. Adeus.
 

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