quarta-feira, 15 de abril de 2015

Adeus

Postado por Beatriz Kollenz Gama às 10:58
   Respiro fundo e desço do carro. Há muito tinha ensaiado a coragem para ir visitar minha antiga rua. Eu sabia que ia ser difícil e um tanto complicado, todo aquele bairro carregava minha história. Foi naquela esquina que aprendi andar de bicicleta e está vendo aquele buraco mais à frente? Foi feito por mim. Eu e os meus amigos achamos uma boa ideia soltar um bombinha dentro de uma lata de concreto. Quando ela estourou a lata voou ao céu e caiu repleta de fúria. Destruí o gramado da dona Maria e fiquei de castigo uma semana. Hoje em dia não existe mais a casa e nem a dona Maria. O grama dela já partiu faz tempo, mas ainda tem o buraco. Acho que eles vão cobrir quando terminarem a fundação do prédio que estão construindo no antigo lote.
   Eu caminho pelas pedrinhas em direção à porta. Minha mãe achava bonito um jardim gramado com caminho de pedras. Sempre sonhou com isso. Quando casaram meu pai fez a tal trila, encheu a fachada de grama e plantou umas florezinhas. Era a trilha de tijolos amarelos dela. Vivia repetindo o lema, igual à personagem do seu filme preferido. Acho que o nome dela era Dorothy. Minha mãe fechava os olhos e dizia: “não há lugar melhor que o lar”. Agora não tem mais ninguém em casa. Vão derrubar na próxima semana. Adiei o quanto pude, mas aqui estou pronto para me despedir. O fato é que não é tão fácil dizer adeus a nossa infância. Vir aqui me dá pesar e alegria, muito sentimento junto e misturado. 
   Eu fui feliz o quanto podia. Corri pelas quadras, atormentei os vizinhos como qualquer moleque. Joguei bola, briguei e bati. Foi aqui que conheci a minha primeira namorada, o meu melhor amigo. Minha história contida em um quarteirão. Meu lar também sempre foi feliz. Mesmo trabalhando feito um burro, meu pai arrumava um tempo para ficar em casa. A gente jogava baralho, assistia a um filme e comia pipoca. Nunca vi uma pessoa amar tanto alguém como ele amava a minha mãe. Ela era a luz da nossa casa. Iluminava toda a família. Não importa quão ruim e miserável tinha sido seu dia, era só chegar em casa que ela espantava o desanimo e colocava a alegria no lugar. O sorriso dela curava tudo, e ela nos amava muito. 
   Nunca foi o plano dos meus pais vender a casa, mesmo com o novo complexo de imóveis surgindo. Mas aí veio o câncer e tudo mudou. Minha mãe morreu, sofreu muito e eu nunca vou entender qual foi o sentido disso. Por que uma pessoa tão boa e pura tinha que morrer justo de câncer? Ela não merecia, aliás, ninguém nunca mereceu. Meu pai não aguentava nem chegar mais perto da casa. Ele ficou um inferno. Ranzinza o tempo todo. Ninguém mais o aguenta lá em casa. Tive que vir fazer a mudança, assinar os contratos da venda do imóvel, resolver tudo sozinho e agora eu estou aqui. Vasculhando para ver se não ficou nada para trás. Dando até mais a minha infância. Despedindo-se de minha mãe. 
   Eu entro pela porta, subo as escadas e visito o meu antigo quarto. Ainda tem as marcas dos pôsteres que ganhava de brinde no fliperama. Tem também as marcas das figurinhas de jogadores de futebol que colecionava. Colava elas na parede rente a cama. Minha mãe ficava para morrer com isso. Visito o quarto dela. As paredes continuam no mesmo tom rosado. A tinta desbotou um pouco com o passar dos anos, mas mesmo assim continua intacto. Minha mãe tinha essa mania em manter a casa bonita. Ela dizia que a casa tinha que ser alegre, colorida, cheia de porta retratos, enfeites de galinha na cozinha é um monte imãs no quadro de recados.
   Eu desço as escadas, dou uma olhada rápida na cozinha, vejo se na sala está tudo bem. Saio pelos fundos, olho a garagem. Não tem mais nada lá. Volto para a sala e percebo algo estranho. Tinha alguma coisa ali no chão, perto da janela. Recolho e é um retrato meu e de minha mãe. Nós dois abraçados no gramado, ao fundo a trilha de tijolos dela, as flores do quintal e a grama do jardim. Ela sempre foi linda, nem a doença levou isso no final. 
   Eu não consigo mais segurar. Sento no chão, sozinho naquele lugar vazio. É a primeira vez que choro a morte da minha mãe. Eu não tive muito tempo para chorar, fiquei forte e lidei com tudo. Fiz esse favor para o meu pai, alguém tinha que cuidar das papeladas, da funerária, do caixão, do enterro e agora da casa. Respiro fundo e levanto. Seco os olhos na manga da camisa. Ajeito os ombros, bato a poeira da roupa e pego o retrato. Fecho a casa e vou para o jardim. Hora de ir. Adeus.

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